Quando o assunto são carros ingleses, impossível escapar a tradições tão enraizadas como as da Bentley. O Flying Spur pode já não ser novo, mas é recente esta fervente versão S V8, com dinâmica que surpreende ao porte e ao peso. E servida em doses imperiais de luxo e sumptuosidade.
Pagar-se quase cinco mil euros por uma pintura laranja metalizada, com a fatura a poder atingir mais de 30 mil euros se a escolha recair numa (ainda) mais excêntrica combinação bicolor (tejadilho vs carroçaria), é algo que deixará de cabelos em pé os mais puristas amantes do mundo automóvel! Porque não será para estes que a Bentley se preocupa em oferecer mais de 100 hipóteses para colorir o surrealismo luxuoso de quem também achará engraçado pagar mais 9348 € para ter um frigorífico entre os bancos traseiros, com uma muito chique porta de abertura elétrica vertical. Esta é a essência de qualquer Bentley, cujo preço pode facilmente chegar aos... 300 mil euros!
A Bentley fecha a série com este V8 S, de superiores cuidados dinâmicos e cuja ligeireza de movimentos resulta quase incrédula não só às dimensões como, em especial, aos mais de 2400 kg que acusa na balança. E mais ainda, juntando-se a definição Mulliner (um dos diversos grupos de especificações que moldam não só visualmente, como espiritualmente a berlina), que acrescenta às jantes de 21 polegadas pormenores decorativos como o forro interior do tejadilho em pele perfurada ou o V8 S costurado nos encostos de cabeça.
Quase se chega a falar de automóvel: é um Bentley
Para coroar um já anunciado final de carreira do Flying Spur, elegantíssima berlina de luxo com 5,3 m de comprimento e maioritariamente pensada para agradar o proprietário que se sente numa das poltronas traseiras, com imensidão de espaço para pernas e ajustes elétricos para costas e assentos, de série.
Falando-se de Bentley, quase não se chega a falar de automóvel, mas sim de conjunto imenso de sumptuosa criatividade possível de se levar à estrada. Tudo no seu interior requer um minuto da nossa atenção, em particular os cuidados únicos com o uso e aplicação de curtumes, madeira e alumínio, os quais permitem diversas combinações de tons entre si, somando-se a possibilidade de conciliar tudo isto a cor específica para a costura das peles. Ou ainda forrar a zona central dos bancos em tom diferente. Até os curiosos comandos cromados das saídas de ventilação, de puxar e empurrar, frisam o carácter quase retórico de um Bentley que não dispensa relógio analógico da Breitling a compor o centro do tablier.
Mas rodar a chave (à esquerda do volante) volta a alinhar as tropas com a exclusividade, com o sonante V8 biturbo a emanar força em resposta a cada toque no acelerador. Não existem modos de condução, apenas ajuste da firmeza dos amortecedores e modo sequencial da caixa automática de 8 velocidades, com enormes patilhas no volante, de tal forma grandes que obrigaram a puxar para baixo as hastes dos piscas e dos limpa-para-brisas...
Sintomas da idade do projeto que, ao volante, surgem dissimulados pela consistência dinâmica e ímpeto de aceleração do muito guloso V8 biturbo (start-stop? Claro que não!). Mesmo na configuração mais confortável o Flying Spur não flutua como um Classe S.