O Honda Civic Type R desperta-nos para o que há de mais demoníaco nas performances de um compacto, pela entrega de 320 cv às rodas dianteiras e as sensações puras e mecânicas. Três saídas de escape centrais servem para picar, como tridente do Diabo, e soam ao Inferno.
O novo Civic Type R tem visual endiabrado, abundam os ornamentos aerodinâmicos e para a refrigeração da escaldante mecânica e de componentes que geralmente atingem temperaturas infernais. São ailerons, defletores, saias e tomadas de ar, muitas arestas e o formato da carroçaria em cunha que não fariam o desportivo compacto da Honda destoar no catálogo da Lamborghini.
Tudo na imagem da nova geração do Type R contribui para o veto à discrição e este autêntico diabo à solta é para o que é, pois que se apresente a vermelho, com aplicações contrastantes a negro em harmonia com a cor da jantes de 20’’, como se fossem o tridente do Demo. Todavia, este aparato visual tem função. Como já se referiu, serve para canalizar ar fresco para arrefecer o motor e os travões ou para apurar a aerodinâmica a alta velocidade.
Ficou apenas o motor...
Do modelo anterior ficou apenas o motor a gasolina de 4 cilindros, 2 litros e turbo, com eficácia aumentada, chegando aos 320 cv e 400 Nm de binário máximo. É possível acompanhar alguns dados do funcionamento da mecânica através das funções do intrincado computador de bordo (comando pouco intuitivo, obrigando a pressionar vários botões para navegar nos diversos mapas informativos), como a pressão do turbo ou a percentagem de uso dos pedais de acelerador e travagem. Em falta, indicador da temperatura do óleo.
Também imagem da marca Type R são as bacquets vermelhas, bem confortáveis e ergonomicamente perfeitas, colocadas em posição inferior no habitáculo, contribuindo para que o condutor fique mais perto do trabalho do chassis e rodas, qual veículo de competição. A posição de condução afinada é apenas um dos diversos sinais de que a Honda quis fazer do novo Civic Type R um desportivo sensorial (que é!), ainda suportado pelo tato mecânico da direção, rapidez e curso curtíssimo de engrenagem da caixa de velocidades manual ou mesmo pela resposta firme a cada pressão no pedal de travão.
Neste mundo tão sensitivo na relação homem-máquina, a Honda perpetua a emoção com a entrega do motor 2 litros turbo, que acorda para a vida às 2500 rpm e sobe rapidamente a escala de pulsações até às 7000 rpm, num frenesim sempre acompanhado por toada mecânica, com cânticos roucos e poderosos emitidos pelas três saídas de escape centrais.
Três 'feitios' de condução
Nesta geração do Type R, possibilidade de escolha entre três feitios de condução, com o Civic a despertar sempre no mediano Sport, como que, desde o momento que começa a rolar, incitasse a veia demoníaca do condutor. Para baixo, sobra o Comfort e, para cima, o nível R+. Em todos eles, variação da calibragem do amortecimento do firme, ao muito firme, culminando no extremamente... firme, pois conforto de rolamento é algo que este Civic parece não conhecer, para mais em conjugação com os pneus de baixo perfil (35) e jantes de 20 polegadas, tudo de série, sobrando pouca borracha para amortecimento.
Como tal, quase configurado e nascido para ser instigado mais em pista do que propriamente em estrada, este desportivo de elevada performance prefere pisos lisos e em bom estado para poder mostrar o que vale. Na gestão dos 320 cv entregues apenas às rodas da frente, a Honda socorreu-se de suspensão com arquitetura de pivot descentrado (para evitar que cheguem ao volante e se intrometam no controlo do guiamento os efeitos de descarga de potência em aceleração, em curva) e autoblocante para melhor gerir a distribuição de força pelas rodas motrizes. Tudo somado a carroçaria extremamente rígida, resulta num desportivo à séria, que deve ser aprendido antes de ser explorado. Não que seja perigoso, mas sim para que dele se retire toda a riqueza dinâmica.
Dianteira a farejar as curvas
Então, apurando o condutor todos os seus sentidos, este começa a perceber a maneabilidade do chassis à entrada das curvas, permitindo que a dianteira fareje a zona mais interior desde cedo, com a máxima precisão só permitida pelo mecanismo da direção e pela perceção das reações do eixo traseiro, para depois se poder aproveitar o poderio mecânico e acelerar muito antes daquele momento em que o cérebro (inicialmente) acha ser o mais indicado. Tudo assim se passa a ritmos verdadeiramente alucinantes, pois o motor e escalonamento (curto) da caixa tal o permite, sem nunca deixar de lado uma das mais fortes sensibilidades mecânicas entre veículos do género.
Da imagem à ação, o novo Civic Type R surge como um dos mais excêntricos desportivos compactos, com engenharia aplicada para controlar e permitir usufruir-se de tudo o que os 320 cv têm para oferecer. Súper eficaz, este um dos mais emotivos e puros do seu segmento. Faz-se pagar caro pelas soluções técnicas avançadas e fustiga os ossos com níveis elevados de desconforto no dia-a-dia, mas compensa com vasta oferta de equipamento, em especial, de segurança. Claro que tudo isto, de ser um dos melhores e mais próximos da competição paga-se. Neste caso, 50 mil euros...