Citroën C3 Aircross 1.2 EAT6

Regresso à jovialidade

TESTE

Por Ricardo Jorge Costa 15-03-2018 10:00

Fotos: Gonçalo Martins

A Citroën está reencontrar-se com o seu passado mais frutuoso, dos tempos em que foi abundante em criatividade e inovação, de autoria de alguns dos automóveis mais inspirados da segunda metade do último século. Dos finais dos anos 40 ao limiar do início do novo milénio, a marca francesa produziu modelos que tornaram ícones de gerações, dos clássicos 2CV, DS e Dyane, aos mais recentes Visa e AX.

Comum à maioria destes, a jovialidade do design e as proporções compactas, o sentido prático em harmonia com o preço acessível, mas com uma componente de sofisticação e de vanguarda tecnológica inalienável, principalmente na técnica das suspensões, com o recurso ao amortecimento hidráulico, que a tornaram uma excelência no conforto (de rolamento) dos seus veículos de gama média e alta. Premissas que elevaram o fabricante do símbolo do double chevron (Dupla Divisa) aos píncaros da popularidade e da notoriedade, que valeram vendas em catadupa e lucros aos milhões.

Todavia, o século XX não trouxe a mesma prosperidade, criativa e económica, ao construtor de Paris, e à exceção do êxito do primeiro C3 (2002-2009), não mais saíram das suas linhas de montagem produtos de referência ou com o sucesso daqueles. A marca entrou em depressão e desnorteou-se, até que há pouco mais de três anos um português veio resgatá-la ao marasmo. Desde o primeiro momento que tomou posse à frente dos destinos do Grupo PSA, em 2014, Carlos Tavares não perdeu tempo a agilizar o processo (que já tinha arrancado, mas timidamente) de devolução da Citroën às suas origens. E apontou o caminho sem hesitar.

Em três anos, a Citroën tem emergido no seio do seu consórcio - a que pertence a Peugeot, a DS e recentemente enriquecido com a alemã Opel – como a marca que se dirige mais a um público jovem. E se houvesse dúvidas sobre este reposicionamento à estratégia que lhe valeu o sucesso nos anos 80 e 90 do último século, em que o Visa e o seu sucessor AX foram utilitários à frente do seu tempo, angariadores de enorme popularidade nas faixas etárias mais baixas dos consumidores de automóveis, os modelos mais recentes da marca do double chevron provam-no. Na Citroën, iremos certamente habituar-nos a criações caracterizadas por formas e proporções fora de norma e a modelos desenhados com elementos estilísticos marcados pela irreverência e a jovialidade, de que é exemplo o C4 Cactus e agora o inédito SUV de segmento B, C3 Aircross.     

      

Desenho

O C3 Aircross é o primeiro crossover compacto da Citroën, mede 4,15 metros, tem mais 20 mm de distância ao solo do que o C3 de que deriva, e as proteções inferiores da carroçaria e dos guarda-lamas indispensáveis à imagem de veículo aventureiro, mesmo que estes cada vez mais raramente saiam do asfalto. Este é portador r rdos referidos códigos genéticos da nova Citroën, pejado de pormenores de design a apelarem a um público jovem, dos apontamentos em cor contrastante à da carroçaria em redor dos faróis dianteiros, nas capas dos espelhos e nas barras do tejadilho, às invulgares janelas em acrílico na zona do pilar C decoradas com efeito de persiana. A acrescentar à irreverência da imagem disponibilizam-se amplas possibilidades de personalização do automóvel ao cliente, que permitem sem número de combinações para a decoração exterior e interior do veículo.

interior C3Interior

O interior do C3 Aircross, claramente inspirado no do C3, não destoa do carácter jovial do exterior e permite igualmente a personalização de acordo com as preferências do proprietário, mediante cinco ambientes configuráveis com diversos materiais (tipos de plásticos, tecidos e couro) e cores. A estes somam-se ainda os equipamentos de cada versão, de série e opcionais. 

A posição de condução é, naturalmente, sobre-elevada e os bancos amplos e cómodos. Nestes, as cotas de habitabilidade são generosas para o segmento e no banco posterior beneficiam do seu deslizamento (por calhas) ao longo de 15 cm, e em duas partes independentes (1/3 ou 2/3), permitindo a gestão de espaço(s) entre os passageiros e a bagageira. Esta tem um volume de 410 litros com os bancos na posição mais recuada, que se estende até aos 520 litros naquela em que os assentos estão mais avançados. Nesta, apesar do encurtamento do espaço para os ocupantes, não deixa de haver em medida suficiente ampla para encaixarem as pernas. No constrangimento total aos passageiros, rebatendo por inteiro esses bancos, a capacidade de carga é de 1289 litros.

A chapeleira é escamoteável e pode instalar-se em posição vertical atrás dos assentos traseiros para permitir o transporte de objetos mais altos naquele compartimento; e há uma plataforma igualmente amovível que poderá ser instalada em dois níveis de altura para configurar uma superfície totalmente plana com as costas dos bancos traseiros rebatidos ou para criar um fundo falso na bagageira. O assento do passageiro da frente também pode ser rebatido para possibilitar o transporte de objetos com comprimento de até 2,40 metros.

O novo SUV dispõe de espaços de arrumação inteligentes, incluindo um ponto de carga sem fios para smartphones na consola central e uma gama completa de ajudas à condução, como head-up display, Active Safety Brake, comutação automática de máximos, reconhecimento dos painéis de recomendação de velocidade, sem esquecer os sistemas úteis no quotidiano, como o Park Assist, ou as mais recentes tecnologias de conectividade, indispensáveis num automóvel que se pretende cativador de uma clientela jovem, que quer estar sempre ligada.

Dinâmica e prestações

O C3 Aircross tem distância ao solo mais elevada 20 mm do que a do C3, modelo de que partilha a plataforma, e dispõe do sistema de controlo de tração otimizado para o todo terreno Grip Control (modos para areia, lama, neve/gelo e asfalto), com associação a dispositivo de controlo em descidas íngremes com aderência precária (Hill Assist Descent), e a pneus específicos Mud & Snow (lama e neve) em jantes de 17” (100 €), permitindo ao crossover aventurar-se por caminhos em terra batida e pouco revoltos.

Mas será sobre o asfalto que o C3 Aircross irá circular mais amiúde, e aí o crossover exibe-se a níveis de estabilidade, segurança e conforto elevados para o seu segmento, desempenho conferido pelo chassis equilibrado com suspensões bem afinadas, assegurando uma condução bastante agradável. Não há adorno excessivo em curva e o amortecimento garante ainda a correta filtragem das irregularidades do piso. Embora sem ser um Citroën à antiga no conforto – nunca o fabricante teria essa pretensão para este pequeno SUV – , apresenta-se, neste domínio, na vanguarda da sua classe.

Menos consensual é o préstimo da motorização a gasolina 1.2, de três cilindros, de injeção direta e turbo, com 110 cv, em associação a caixa de automática de seis velocidades. O contributo deste agregado de mecânicas para as prestações do automóvel é bastante satisfatório, ao cumprir as exigências, quer em estrada, quer fora, com elasticidade e consistência suficientes. Porém, o consumo do bloco Puretech é penalizado pela sua associação à transmissão EAT6, sempre ciosa em prolongar-se com uma relação inferior engrenada, mantendo o regime do motor mais alto, impossibilitando baixar da fasquia de 8 l/100 km médios neste teste. Demasiado penalizador para a vertente económica, um dos baluartes que a Citroën pretende manter dos seus tempos de glória.

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Ficha Técnica

Caracteristicas

CITROËN C3

Aircross 1.2 EAT6

Motor
Arquitetura 3 cilindros em linha
Capacidade 1190 cc
Alimentação Injeção direta, Turbo, Intercooler
Distribuição 2 a.c.c./12 v
Potência 110 cv/5500 rpm
Binário 205 Nm/1500 rpm
Transmissão
Tração Dianteira
Caixa de velocidades Automática de 6 velocidades
Chassis
Suspensão F Ind. McPherson
Suspensão T Eixo de torção
Travões F/T Discos ventilados/Discos
Direção/Diâmetro de viragem Elétrica/-
Dimensões e Capacidades
Compr./Largura/Altura 4,150/1,760/1,640 m m
Distância entre eixos 2,6m
Mala 410-520-1289 litros
Depósito de combustível 45 litros
Pneus F 7jx16-195/60 R16
Pneus T 7jx16-195/60 R16
Peso 1234 kg
Relação peso/potência 11,2 kg/cv
Prestações e consumos oficiais
Vel. máxima 183 km/h
Acel. 0-100 km/h 11,8 s
Consumo médio 5,6 l/100 km
Emissões de CO2 126 g/km
Garantias/Manutenção
Mecânica 2 anos sem limite km
Pintura/Corrosão 2/12 anos
Intervalos entre revisões 20000 km
Imposto de circulação (IUC) 133,4 €

Medições

CITROËN

Acelerações
0-50 km/h 3.7 s
0-100 / 130 km/h 11.4 s
0-400 / 0-1000 m 17.9 s
Recuperações
40-80 km/h (D) 4.6 s
60-100 km/h (D) 6.4 s
80-120 km/h (D) 8.8 s
Travagem
100-0/50-0km/h 43.5/11.1 m
Consumos
Consumo médio 8 l/100km
Autonomia 562 km

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