Um espalhafato em quatro metros de automóvel. Mas que não fica por aí. Ao dar vida ao motor 1.7 turbo colocado em posição central, bem atrás da nossa cabeça, e depois fazendo subir as rotações para dar estrondo ao escape Akrapovic, junta-se ao espalhafato o frenesim, para os sentidos de quem estiver ao volante (e ao lado...) e dos que se cruzem com esta barchetta azul.
O 4C Spider já não é propriamente novidade – lançado em 2015, dois anos após a versão Coupé – mas o estatuto de raridade na estrada ajuda a reforçar o mediatismo das linhas inebriantes que expressam, da melhor forma, a arte italiana de (bem!) saber fazer desportivos que apaixonam. E este, entenda-se, é especial em cima de especial, tratando-se da edição Italia do 4C Spider, limitada a 108 unidades, em que Portugal teve a honra de acolher apenas... este exemplar! Da especificidade, azul Misano como única cor disponível, até agora ausente da oferta na gama 4C, com pormenores em contrastante amarelo, quer nas pinças de travão, quer em diversos acabamentos no interior. As jantes são igualmente únicas, de 18’’ à frente e 19’’ atrás, com o já histórico e inconfundível formato de cinco ogivas.
O interior, espartano como o conceito exige, tem nas referidas decorações em amarelo o apontamento de diferenciação do Italia, com costuras no volante, portas, tablier, tapetes e bancos. Estes, forrados a pele e a microfibra, fogem ao habitual formato de bacquet de carro de competição, mas com assento ergonómico igualmente correto.
À frente dos olhos do passageiro, mais uma referência à série especial Italia, com logo gravado no lugar habitualmente entregue ao porta-luvas, que aqui se resume a uma fina bolsa de arrumos. É verdade: não é fácil encontrar um espacinho para alojar o conteúdo dos bolsos. Tal como não é fácil entrar e sair do habitáculo, apertado e rente ao chão. E também não será com a maior das facilidades que se alcançam os botões da caixa automática, colocados na consola central, quase ao pé do para-choques da frente (passando o exagero!). E, definitivamente complicado, será rodar o volante com o 4C parado. Porquê? Porque o nível de pureza dinâmica vai ao ponto de não haver direção assistida. Justifica-se?
Não... Porque a tecnologia atual já oferece direções assistidas capazes de aliar ligeireza para manobras a ótimo tato direcional. Que no 4C é extremamente fiel ao estado da estrada e à ausência de peso sobre a dianteira do carro. Assim, quando o motor berra em estridente e arrepiante subida de regime (bem aproveitada pela contenção do peso total, que não chega à tonelada, fruto da monocoque em fibra de carbono, diversos elementos em alumínio e até de vidros 10% mais finos), por vezes é bom esfriar os ímpetos de piloto e assumir que se deve aprender a lidar com as reações deste levezinho. A referida pureza concecional faz com que este desportivo apenas se sinta como peixe na água em estradas de piso ótimo, onde será possível aproveitar a leitura (e o peso certo) proferida pela direção, mas também a chama imensa protagonizada pela entrega do 1.7 turbo.
À primeira vista, os 240 cv poderão não impressionar, mas a relação peso/potência de apenas 3,9 kg/cv aproxima-se à de... superdesportivos! E tal se perceciona pelo ímpeto de velocidade, para mais estando as sensações empoladas pela proximidade de contacto com a estrada, pela firmeza extrema da suspensão (dispensa amortecimento variável) e pela sonoridade eloquente. Cujo tom se engrossa ainda mais no modo Dynamic, tal como se apura a resposta do motor. A colocação central do 4 cilindros ajuda à ótima motricidade, com o autoblocante a fazer o resto do trabalho. A quase ausência de assistência no pedal de travão obriga a força extra, mais uma vez ao estilo de corrida e não tanto a carro de estrada...