O desafio era de monta! Sair da área de conforto da atrevida scooter urbana, deixar a cidade para trás e atravessar Portugal de Lés-a-Lés em versão off-road. Tarefa hercúlea para uma máquina pensada para resistir às exigências da selva urbana, capaz mesmo de mais longas aventuras estradas asfaltadas e umas pequenas passagens pelos pisos de terra para chegar àquele turismo rural criado num monte alentejano. Apesar da imagem agressiva, de inspiração endurista, a X-Adv não foi, manifestamente, criada para fins tão radicais. Mas mostrou uma resistência e eficácia que surpreendeu meio mundo e deixou até os japoneses da Honda de boca aberta. Ou de olhos em bico…
Espanto fácil de entender depois de cumprir a aventura organizada pela Federação de Motociclismo de Portugal, em ligação de Macedo de Cavaleiros a Albufeira, passando por Castelo Branco e Reguengos de Monsaraz, e quase sempre em fora de estrada. Dias de aventura e descoberta onde não faltaram algumas ligações em asfalto, permitindo aferir comportamento e conforto, estabilidade e eficácia em todas as circunstâncias imagináveis. Autêntico tira-teimas em versão definitiva que começou com saída da cidade para longa tirada entre Lisboa e Macedo de Cavaleiros que serviu para confirmar elevado conforto, desde o generoso banco ao ecrã facilmente ajustável (apenas em parado) aumentando substancialmente a proteção aerodinâmica mas também os consumos, dados confirmados no regresso de Albufeira. Ocasião soberana para aferir a qualidade da iluminação, excelente; a boa leitura oferecida pelo completo painel, que peca apenas pelo posicionamento dos botões, e o espaço sob o banco, algo limitado para padrões habituais de scooter.
Passemos às coisas sérias. A preparação da X-Adv para a grande aventura passou – além da montagem de pneus de perfil mais TT, os Pirelli Scorpion Rally STR – pela instalação das barras de protecção inferiores e dos poisa-pés em posição central. Acessórios originais Honda que revelaram enormíssima utilidade na passagem nos trilhos mais enduristas, protegendo a placa de apoio dos pés, enquanto os patins facilitam a condução de pé. Posição bastante bem conseguida para a condução em fora de estrada, apenas ligeiramente inclinada sobre a dianteira ajudando no controlo do peso, com as pernas algo abertas pela largura do banco e das próprias carenagens sempre que é necessário puxar o corpo para trás. Longe, muito longe mesmo, de ser uma endurista ou ter, sequer, ambições a transformar-se numa trail, a X-Adv fez o mesmo percurso que todas as outras, ultrapassando limitações próprias das rodas mais pequenas, curso de suspensão reduzido e da escassa distância livre ao solo. E que, por isso mesmo, pagou fatura sob forma de algumas mazelas no cárter, escape e descanso central.
Claro que – nunca se esqueça! – sendo scooter urbana por excelência, a X-Adv obriga a repensar todos os mecanismos de condução, desde logo pela posição mas também pela impossibilidade de desligar o ABS, podendo isso sim, optar pela menor intervenção do controlo de tração ou até desliga-lo de forma fácil. Tarefa que é necessário confirmar cada vez que se desliga a moto, de modo a evitar sustos e contratempos nos pisos mais escorregadios onde o corte da injecção pode criar situações mais complicadas. Quanto à travagem, o bom acerto em cidade e estrada foi confirmado pelo enorme equilíbrio e, mesmo sem poder desligar ABS, este não foi impeditivo mesmo nas descidas mais pronunciadas e deslizantes, exigindo apenas mais atenção para não ganhar velocidade excessiva. Sem poder fazer a traseira escorregar em travagem, muda a forma de abordar as curvas, ‘jogando’ ainda mais com o peso do corpo nos poisa-pés e, não menos importante, com o acelerador para fazer a traseira derrapar e assim obviar a longa distância entre eixos e o peso considerável. Truques que foram aprendidos ao longo dos quilómetros e que, somados, tornaram cada vez mais fácil a transposição de obstáculos bem como ajudaram a ganhar rapidez de forma mais fluida, minimizando agressividade para com a máquina. E, acreditem, é possível andar realmente depressa nos estradões, graças a ciclística que, salvaguardando as limitações conceptuais da X-Adv esteve à altura dos acontecimentos. Mesmo se alguns buracos levaram a esgotar o curso das suspensões, tal a velocidade que o motor bicilindrico permite atingir de forma suave mas decidida. Aqui chegados, tempo para abordar outra surpresa deste teste mais, digamos, intensivo. O sistema de transmissão com dupla embraiagem DCT pode ser utilizado em qualquer um dos modos na condução em terra, com particular destaque para o automatismo Sport que liberta o condutor de preocupações, com perfeita adaptação em cada momento. E sempre com possibilidade de intervenção manual para melhor adaptação a cada circunstância. Mas, para condução realmente divertida, o modo Manual permite controlo bastante preciso em aceleração e, graças à enorme rapidez de funcionamento da caixa de velocidades torna tudo mais simples, sem preocupações com a (inexistente) manete de embraiagem. Sistema de dupla embraiagem DCT que evita o motor ir abaixo e que ganha acrescida eficácia com o botão G, modificando o controlo da embraiagem para uma maior rapidez das passagens de caixa e garantia de maior tração, ajudando nas zonas de travagem como nos locais de piso solto ou pedras escorregadias, de abordagem assim facilitada para os menos experientes nestas coisas do todo-o-terreno.