Em tempos como estes, em que os limites do progresso tecnológico do hardware (chassis e motores já não têm muito por onde evoluir (à exceção da propulsão elétrica), e é cada vez mais o software a marcar diferenças, não surpreende que a maioria dos fabricantes de automóveis TT se dedique muito mais ao aburguesamento da fórmula, contando-se pelos dedos de uma mão os que ainda apresentam no seu portefólio automóvel fiel à receita original de puro e duro. A Jeep é marca que não abdica de modelo old school: o Wrangler. No desenvolvimento da geração nova (JL) de ícone da indústria automóvel, os especialistas da Jeep não mexeram quase um milímetro nas formas e na silhueta quadradonas, mantendo-se fiéis ao desenho original do veículo de origem militar, o mesmo acontecendo com alguns pormenores deliciosamente retro, como as braçadeiras laterais que servem para fechar o compartimento do motor, a enorme grelha com sete barras verticais ou os faróis redondos, bem simples.
Mas o que se aplaude é a jura de fidelidade a fórmula à antiga de carroçaria de aço suportada por estrutura com longarinas e travessas, suspensões de eixos rígidos, molas helicoidais, escora transversal e barras estabilizadoras. Sim, é um duro, como já não se fazem… muitos! Porque a Jeep não está sozinha nesta guerra.
Por menos de metade do preço que custa o herdeiro direto do americaníssimo Willys da II Grande Guerra (na versão de topo da gama Wrangler, com apenas duas portas e outros tantos lugares, vantagem comercial, custando 59.500 €, valor que não sendo propriamente acessível, sempre é mais aceitável que os quase disparatados 68.500 € que a marca norte-americana pede pela variante de quatro lugares…), a Suzuki oferece modelo com os mesmos dotes de… montanheiro, o Jimny.
Há quase 50 anos que o mais pequeno todo-o-terreno do mercado dá provas de pertencer a uma elite de veículos capazes de enfrentar terrenos impossíveis. O Jimny não é espaçoso, parece caber na bagageira do Wrangler, quase não tem mala, não é rápido, não é muito confortável, mas tem carisma e capacidade para divertir no TT. Nesta nova geração, há que destacar a evolução na vertente tecnológica do sistema de entretenimento, o motor mais silencioso e pujante e ainda o notável acréscimo de equipamento, nomeadamente de segurança.
Mas vamos à novidade mais relevante: sob o capot encontramos o quatro cilindros a gasolina de 1,5 litros e 102 cv, que substitui o 1.3 da geração anterior, com 83 cv. Acoplado a caixa manual de cinco velocidades, a mecânica tem um pouco mais de músculo face à anterior, o que lhe confere sobretudo capacidade superior para enfrentar terrenos mais difíceis, pois as vantagens em estrada, embora existam, não sejam muito relevantes, com o Jimny a continuar a ser um automóvel lento.
O Suzuki herda do antecessor o bom desempenho em off-road sem grandes recursos eletrónicos: a tração acontece, por defeito, nas rodas traseiras e o eixo dianteiro (4H) é conectado manualmente num seletor posicionado atrás da caixa de velocidades, à antiga, onde se engrenam também as redutoras (4L), num regresso às origens que se saúda, visto que na geração anterior as funções referidas eram inseríveis por botão.
Atiramo-nos para fora de estrada com o Jimny, enfrentando os mesmo trilhos de pedregulhos mais altos que o Wrangler galgou com à vontade. Parece ensinado. Graças também aos amplos ângulos de TT – 37.º de ataque, 28.º ventral (antes 31.º) e 49.º de saída, o pequeno japonês vai esgravatando o caminho monte acima e só as rodas traseiras patinam um pouco à procura de tração. É um duro, nenhuma dúvida. A posição de condução é correta, sobrelevada como se recomenda nos TT, embora o assento não disponha de regulação em altura. Em contraponto, o volante, apenas desta dispõe...
O Jimny tem (exclusivamente) três portas e no acesso aos bancos traseiros necessário (como é óbvio) mover o banco da frente, em dois movimentos. O acesso aos lugares posteriores é exíguo e a altura ao solo não ajuda. Contingências de um TT de tamanho XS. A bagageira tem apenas 85 litros. Com o rebatimento dos bancos de trás (reduzindo assim a lotação a duas pessoas), o volume de carga sobe para 377 litros.
Brilhante em TT é também o Wrangler, com tração 4x4 inserível, bloqueios de diferenciais e ângulos específicos para atacar qualquer obstáculo. Pela primeira vez, diferencial central permite circular com quatro rodas motrizes sobre superfícies muito aderentes. E incansável Diesel de 200 cv, no lugar de motor VM de 2,8 litros com semelhante potência, e arsenal técnico para o todo-o-terreno mais exigente. A lista de elementos exclusivos inclui sistema de tração integral Rock-Trac (rácio 4:1 nas relações baixas), diferenciais TruLok (é possível bloquear-se o diferencial traseiro ou ambos, em simultâneo), barra estabilizadora dianteira desconectável (desligando-a, aumenta-se o curso da suspensão) e pneus BFGoodrich Mud Terrain T/A KM2 de série, em vez dos Bridgestone Dueler H/T. Dotação que torna o Wrangler praticamente imparável quando o terreno se compõe de pó, terra e lama, apresentando-se escorregadio ou atulhado de pedras.
Rolando no asfalto, são rijos, desconfortáveis e pouco práticos, mas quem os conduz não espera outra coisa. Jeep Wrangler e Suzuki Jimny são automóveis de outra escola, a velha escola dos todo-o-terreno puros e duros! Dispondo de motor com o dobro da potência e infindável lista de sistemas de apoio à condução fora de estrada, o Wrangler está para o Jimny como Golias para David, mas como na história bíblica, também aqui o mais pequeno (e mais barato!) não vira a cara à luta. Não vence, mas não é derrotado.