No nosso Portugal com mão fiscal pesada, conduzir automóvel equipado com mecânica com cilindrada acima dos 2 litros já roça a prática de espécie de exercício de ostentação. Ao contrário, do outro lado do Atlântico, por terras de Tio Sam, apesar da pressão crescente de opinião pública e indústria, carros e motores continuam a querer-se grandalhões, imponentes, musculados, barulhentos, potentes e, como consequência, gastadores. Foi por aquelas paragens que há muitos anos começaram a fazer sentido os chamados muscle cars, como o Mustang, que passeámos por Lisboa, com todo o espalhafato! Mesmo depois da decisão da marca da oval azul de propor este ícone globalmente, imediatamente contestada por alguns fãs por haver risco de perder-se a magia da exclusividade, continua a ser raro encontrar um por estas bandas. E todos olham.

O que há para ver?
O capot rebaixado com entradas de ar integradas, grelha redesenhada e luzes com tecnologia LED, além de uma nova paleta de cores exteriores (11 ao todo) e novas opções de jantes em liga leve, não alteram uma vírgula às linhas iconográficas do costume. Agora mais baixo e ainda mais largo, o Mustang é automóvel que se topa a léguas, com a sua carroçaria do tipo coupé, com capot muito longo e vão traseiro muito curto. A distância entre eixos foi mantida ao antecessor, o que significa também que o carro também muda pouco na oferta de espaço, mantendo configuração do interior de dois ótimos lugares à frente, mais dois atrás apenas para desenrascar. Os melhores desportivos europeus não fazem diferente. E o que quase nenhum destes têm é uma bagageira com tanta arrumação. Ponto para o americano.
Ainda sobre o interior, confirmar que continua sem deslumbrar em matéria de qualidade, com aplicações em plástico a imitar cromados, um tablier com mistura de revestimentos de toque mais ou menos suave com outros bem duros. O monitor digital de 12’’ na instrumentação é, talvez a exceção, personalizável consoante os modos de condução selecionados.
«Engine On»
Com esta frase inscrita no painel de bordo, o Mustang informa-nos que o V8 em alumínio está acordado, como se o V8 tivesse um despertar silencioso. Há a possibilidade de ativar-se o modo de boa vizinhança, que permite diminuir os decibéis através do denominado sistema de escape ativo, configurável no ecrã de bordo ou no painel digital à frente do condutor. Mas, sem filtros, aquele motor enorme, quer na capacidade (5.0 litros), quer no rendimento (450 cv, mais 29 cv que o antecessor), expressa-se em notas graves e contagiantes. Inimitável!

Esta 6.ª geração do automóvel elevado ao estatuto de quase mito assenta numa plataforma totalmente nova, exclusiva no universo das marcas da Ford. A suspensão traseira é independente com multibraços e foi reforçada a quota de aços de ultraelevada resistência para garantir o comedimento do peso na medida europeia. O amortecimento (mais suave no eixo dianteiro e mais firme no posterior do que no Mustang que se vende nos Estados Unidos) com afinação correta e a rigidez estrutural do chassis, asseguram surpreendente dinamismo, até quando o carro é levado aos limites, com a eficácia indispensável ao estabelecimento de autênticos tempos canhão no nosso protocolo de medições; o ícone norte-americano precisa de 4,9 s para acelerar de 0 a 100 km/h. A caixa de velocidades pode ser rápida e precisa ser manuseada com alguma perícia, ainda que a engrenagem das diferentes mudanças seja sempre viril. Esta longe de ser o melhor equipamento que encontramos no mercado. Cumpre.
Quase normativa em desportivos que se prezem, a eletrónica que permite ao condutor modificar o funcionamento de diversos componentes do carro de acordo com as suas preferências e condições de utilização. Através de três botões instalados na consola central altera-se a assistência da direção, sistema de controlo de estabilidade e selecionam-se modos de condução (que variam a resposta do acelerador, a sonoridade do escape e a tolerância do controlo de estabilidade): Normal, Drag, que otimiza os arranques, Sport+, o desportivo por excelência, Track, para pista, My mode, o único personalizável, e Neve. A tudo isto juntam-se as funções Launch Control e a Line Lock, que bloqueia as rodas da frente para rédea solta à realização de controlados e fumarentos donuts…
Nenhum anula defeito, que é mais feitio: nas curvas rápidas, conduzindo-se depressa, o peso a mais à frente empurra-nos, suavemente, para o exterior da curva, movimento que controlamos sem problemas antes da eletrónica atuar. Até porque nunca existiu Mustang tão fácil de dominar...