Ponto prévio: o trabalho comparativo que se segue em nada se assemelha aos confrontos que publicamos semanalmente, em que, seguindo à risca parâmetros estabelecidos numa tabela de pontuação, nos empenhamos na feitura de um veredito, a eleição do melhor representante de uma determinada categoria de automóveis. Ora, à parte dos preços proibitivos para o comum dos mortais, da imponência do porte ou do facto de serem automóveis brilhantemente desenhados, Tesla Model S 100D e BMW 730d não são máquinas realmente comparáveis entre si. O primeiro tem à disposição 423 cv, que se extraem de dois motores elétricos, enquanto o segundo tem convencional motor de combustão Diesel com 265 cv. O BMW consome gasóleo, não demasiado para o seu gabarito e potência: cerca de 9 litros por cada 100 quilómetros; o Tesla não tem sequer depósito de combustível. No seu lugar, poderosa bateria de iões de lítio de 100 kWh. Assim, e mais do que alimentar polémicas entre qual o melhor veículo de luxo, limitamo-nos a relatar visões completamente distintas do melhor que o dinheiro pode comprar.
Presente vs. Futuro
Num período de transição do automóvel, entre uma espécie de sentença anunciada das motorizações de combustão, com o Diesel em pleno corredor da morte, e a perspetiva duvidosa de que a eletricidade venha a ser fonte exclusiva de energia para as mecânicas do amanhã, não são precisos muitos quilómetros ao volante do BMW Série 7 para relembrarmos a frase célebre de Ésquilo, dramaturgo da Grécia Antiga: «Conhecerás o futuro quando ele chegar; antes disso, esquece-o…». Em análise está a versão mais procurada da berlina de luxo alemã, equipada com Diesel de 6 cilindros, que impressiona pelo funcionamento progressivo e suave e a imunidade a ruídos e vibrações. E a resposta num ápice aos movimentos do pedal do acelerador, mérito partilhado com a caixa automática de 8 velocidades. Os 600 Nm entram em ação às 2000 rpm e mantêm-se até às 2500 rpm, contribuindo para a notável elasticidade das prestações do Série 7. É de tal forma convincente que, por momentos, esquecemos mesmo que outras fórmulas de criação de energia possam fazer (mais) sentido. Claro que, ao Model S 100D, o 730d, apesar de ter do seu lado ótima relação peso/potência e uma caixa rapidíssima, não consegue vantagem nas performances. De qualquer modo, o nível destas é tão elevado que nunca há vazio dinâmico. O atual Série 7 foi o primeiro automóvel fabricado de série a usar plástico reforçado com fibra de carbono (CFRP) na rconstrução da sua carroçaria, não como material visível no exterior mas em combinação com aço, alumínio e plástico. É também pioneiro na forma como o CFRP se integrou plenamente no processo de produção, outro indicador de como a aplicação em grande escala deste material ligeiro e rígido – inicialmente desenvolvido para os modelos i –, também está a ser utilizado noutras gamas de modelos, contribuindo para minimizar o peso e aumentar a robustez da construção e a rigidez da carroçaria. Este Série 7 é até 130 kg mais leve que a geração anterior (1/3 da redução na carroçaria), não obstante importantes inclusões à extensa lista de equipamentos de conforto e de segurança (as medidas de diminuição de peso resultaram num emagrecimento de 200 kg, com 70 kg anulados pelos conteúdos acrescidos). Acelerando-se, a ação da suspensão pneumática impressiona, coadjuvada pelo Controlo Dinâmico de Amortecimento, igualmente de série. O comando do Controlo de Experiência de Condução pode utilizar-se para selecionar entre três afinações dos amortecedores, ora elevando ainda mais o conforto (modos Confort e Confort +) ou favorecendo o comportamento mais ágil (modo Sport). As rodas traseiras podem rodar até 3 graus em ambas as direções (na oposta das rodas dianteiras até 60 km/h e na mesma direção acima dessa velocidade) o que, na prática, serve para melhorar a manobrabilidade da limusina de mais de 5 metros em zonas urbanas e a agilidade em condução desportiva. Outra opção que melhora o comportamento geral do 730d é o sistema que se recorre de barras estabilizadoras acionadas electromecanicamente para reduzir a tendência para a carroçaria adornar em curvas rápidas.
A condução do Tesla é, sem dúvida, experiência diferente. Model S é menos confortável, tem interior com menos qualidade e muito menos refinado e não há comparação possível no que toca à dinâmica... A falta de agilidade é flagrante, sobretudo em curvas sucessivas, pois o eixo traseiro fica a flutuar, o que será eventualmente uma reação potenciada pela suspensão pneumática, pois até em oscilações ligeiras se sente alguma ondulação. Claro que assim que a direção está apontada para a saída da curva, o carro sai disparado como uma bala, mas isso não ameniza a falta de intensidade. Sensações fortes há, claro, sobretudo pela elevada velocidade que atinge rapidamente em reta ou à saída das curvas, mas nunca pela reatividade do chassis ou pelo feedback da direção, cuja assistência pode ser regulada (modos Comfort, Normal e Sport), nenhum especialmente capaz na missão de comunicar com precisão cirúrgica tudo o que se passa com as rodas dianteiras.
No painel de bordo, além de volante e instrumentação digital, há apenas um botão, para abrir o porta-luvas. Tudo o resto se comanda a partir de um enorme ecrã de 17’’ ao centro, incluindo modos de condução. Nesta unidade tínhamos dois à disposição: Chill em que a aceleração está limitada para oferecer uma condução suave e leve, e standard, que garante o nível normal de entrega, para acelerações e recuperações anormalmente rápidas! Dos dois motores elétricos, um à frente e outro atrás (tração integral), extraem-se 423 cv e 660 Nm, disponíveis desde o arranque, que é de colar costas, cabeça, todo o corpo, ao banco!
Mas, veículo que está entre os protagonistas mais importantes do segundo século do automóvel, fabricado por marca que é referência na digitalização, eletrificação dos motores e condução autónoma, tem, obviamente, outros trunfos para além da aceleração. Aplauda-se o nível ótimo de conforto e o silêncio a bordo. A habitabilidade e capacidade de carga. E, claro, a enorme autonomia. Nesta versão, a bateria tem 100 kWh de capacidade, oferecendo uma autonomia anunciada de 623 km, que apenas cumpre reunindo uma série de condições muito específicas. Mas consegue-se fazer entre 480 e 530 km com a carga a 100%, isto sem abusar dos arranques... O carregamento pode ser efetuado em casa, sendo que com uma wallbox (carregador de parede), a bateria carrega até 80 kWh; nos carregadores públicos convencionais ou nas duas redes de carregamento que a Tesla está a expandir em Portugal e que já existem por toda a Europa: os supercarregadores (há cinco em Portugal), que em 20 minutos carregam cerca de 250 km, ou o «Carregamento no Destino», que replicam o que se faz em casa numa wallbox (carregam até 80 km de autonomia por hora).
Por fim, tratando-se de um Tesla, é indispensável falar da condução autónoma. O sistema Auto Pilot que equipava a unidade de teste é de segunda geração, sendo capaz de controlar o cruise control e a direção, mudar de faixa quando ativamos o pisca e estacionar sozinho. Em autoestrada, funcionamento irrepreensível. No BMW destacamos o estacionamento remoto. O condutor sai do veículo e usa a chave para iniciar o movimento do Série 7 para um lugar vago de estacionamento. O carro avançar e recua por si próprio (em linha reta e desde que posicionado em frente ao dito lugar vago e até um limite de 1,5 vezes o comprimento do carro), interrompendo a marcha quando deteta um obstáculo, material ou humano.
O BMW fundamenta-se (e bem!) em tudo o que é privilegiado pelo típico cliente do segmento, como os níveis de conforto e serenidade inalcançáveis entre semelhantes, além de sensação de robustez e segurança em estrada, em que nada se ouve. A condução do Tesla é uma experiência à parte, desde logo porque se trata de automóvel 100% elétrico que permite número (ainda) invulgar de quilómetros entre carregamentos. E ultrapassada a questão sempre pertinente da autonomia, as prestações, sobretudo a capacidade de aceleração são trunfos que alia a muito bom nível de conforto, habitabilidade e capacidade de carga e uma imagem a que ninguém fica indiferente. É a prova de como o mundo automóvel está em constante mutação, refugiando-se num plano tecnológico ímpar que transporta a experiência do luxo e da sofisticação para níveis ainda desconhecidos. Superiores.