Expectativa satisfeita com a confirmação em teste do mérito da Ford na passagem para a quarta geração do Focus, impunha-se primeiro exame comparativo com os concorrentes do seu segmento. A escolha recaiu no Peugeot 308, um dos modelos mais populares e competentes, na geração atual de finais de 2013, uma antiguidade na classe importante, apesar de renovação ligeira em 2017. Automóvel novo e a outro que se deve considerar, digamos, maduro, no que veremos se acusando o peso da idade numa indústria em permanente evolução.
O Focus anterior saiu de cena ainda na quase plenitude da sua competitividade, como poucos na categoria. A longevidade do chassis preserva-lhe o bom compromisso – um dos melhores – entre dinâmica e conforto de rolamento, a direção exemplar na precisão e no doseamento da assistência e os travões eficazes. Não era exigente, portanto, a missão da Ford, bastando, segundo o jargão, evoluir na continuidade.
Todavia, a marca norte-americana solidamente baseada na Europa pretendeu ir mais além do que seria mais fácil na componente estrutural do Focus e desenvolveu-lhe uma nova plataforma. Parecerá contrassenso, dispêndio de meios, no mínimo, mas foi uma tarefa imperativa para cariz economicista e permitindo a abertura a sinergias na gama, o primeiro através da supressão de peso essencialmente, e não tanto com o objetivo de otimizar o dinamismo ou a sofisticação técnica do carro. Esta última, muito menos, sabendo-se que as versões com motor menos potente do Focus passam a eixo posterior com barra de torção, quando antes o tinham independente e multibraços, arquitetura que agora é reserva dos Focus mais potentes. Como compensação, propõe-se sistema de molas de vectorização da força (conhecemo-lo do Fiesta ST), com ganhos na inserção em curva mais incisiva e precisa. A estrutura do novo Focus beneficia de um aumento de 20% na rigidez torsional, da redução entre 40 a 88 kg no peso e do apuro da aerodinâmica, o que está na origem de consumos mais reduzidos, uma vez que os motores não foram intervencionados, porque o dispensavam, principalmente o evoluído bloco 1.0 de 3 cilindros turbo, a gasolina.
Por isso, o Focus ainda melhorou o seu dinamismo, reforçando o estatuto de referência. Uma dor de cabeça para a maioria da concorrência, Peugeot 308 incluído. Não que o compacto francês desaponte nesta característica importante para o desempenho geral do veículo e o agrado na sua condução, mas porque o Focus faz melhor, ponto. O 308 é mais filtrado, em tudo, com influência direta do feedback com o condutor, o que, em contraponto, confere-lhe uma superioridade relevante para quem a privilegie: na suavidade do amortecimento, logo mais confortável, principalmente quando o piso não é bastante irregular e impõe trabalho aturado à suspensão. Aí, o Ford continua a revelar-se mais consistente na absorção dos ressaltos da estrada.
Maior equilíbrio encontramos nas prestações dos motores. Um duelo de membros destacados das consagradas famílias EcoBoost, da Ford, e Puretech, da Peugeot. Na mecânica, tal como nas performances e no consumo, há poucas diferenças. Ambas a gasolina, de 3 cilindros e com turbo, dissemelhantes apenas na cilindrada: 1.0 EcoBoost, 1.2 Puretech. Em resultado, 125 cv contra 130, respetivamente, e ambos com transmissão manual de seis velocidades, destacando-se a do Focus por ser primor de precisão e suavidade de engrenagem. Logo, (ligeiramente) melhor. Em ambos, conte-se com gastos de combustível em redor dos 7 l/100 km, sem rigores de poupança.
A silhueta berlina do Focus manteve os contornos tradicionais e só com fita métrica se afere o aumento de 1,8 cm do seu comprimento total, ou tão pouco os significativos mais 5,3 cm da distância entre eixos. Resultado: rodas puxadas aos extremos da carroçaria, em que se repercute a ampliação do espaço no interior, no habitáculo e na bagageira. Nos lugares de trás, aplaude-se a extensão de todas as cotas, com relevância para o comprimento (ao nível das pernas), para 72 cm (+4 cm), e a largura, porta a porta, para 138 cm (+8 cm). Na altura apenas houve um discreto crescimento de 2 cm, mas que foi o suficiente para o Focus passar a acomodar passageiros acima dos 1,85 metros sem rasparem a cabeça no tejadilho. O aumento da volumetria geral do habitáculo do Focus eleva-o a posição cimeira no segmento, onde não está o Peugeot 308, mais exíguo, no banco de trás e na mais importante medida, para as pernas (-5 cm), apesar de ligeiramente mais largo (+3 cm) e de ter a mesma altura (93 cm) ao teto. A berlina francesa vinga-se na capacidade da bagageira, que é superior, em 45 litros, à do rival americano, num total de 420, e apesar deste ter ganho 12 à do modelo antecessor, para 375, digamos, mais familiares.
Ainda no interior, regista-se a renovação completa do painel de bordo do Focus, numa lógica de simplificação do design com a redução dos comandos físicos (tipo botões) em privilégio do digital e tátil. Uma cruzada que o 308 encetou logo na sua origem, com a estreia do famigerado e (discutido) iCockpit, conceito de painel de bordo em que os instrumentos estão sobre o tablier e (supostamente) acima do volante compacto. Todavia, nesta 1.ª geração, o agregado de componente não tem vantagem consensual, o que o sucessor (nos modelos 3008/5008 e 508) é superior.
No novo Focus, instrumentação, tablier e consola foram revistos no design, mas deveriam tê-lo sido, com maior empenho, na qualidade dos materiais, no que é das poucas coisas em que o Focus permanece abaixo das referências da classe, de que também se exclui o 308, embora este com a desculpa da antiguidade. De resto, o Peugeot sobressai por ter ecrã central do infoentretenimento integrado no tablier, enquanto o Ford instala-o sobre este, com menor ergonomia e harmonia estética.