Apesar da camuflagem específica que ostentam na carroçaria, numa espécie de convite e pular a cerca e arriscar incursões leves por maus caminhos, Peugeot Rifter e VW Caddy Alltrack não têm pretensões ao estatuto de TT puro e duro. Longe disso; os frisos laterais em plástico reforçado que defendem as carroçarias dos habituais toques e até a existência de placas de deslizamento ou proteções específicas dos órgãos mecânicos que nos habituámos a ver nos crossovers permitem acrescentar alguma versatilidade ao comum MPV, que se esgota, porém, numa maior confiança para subir e descer passeios ou para atalhar caminhos com outro à vontade por estradões de terra batida, desde que nada exigentes.
Assim, claríssima piscadela de olho a clientela jovem, com especial gosto por atividades radicais na natureza, cujo orçamento não estica para chegar aos mais modernaços crossovers à disposição no mercado nacional.
No Caddy, a VW replicou a fórmula Alltrack, que usa com sucesso noutros modelos da gama, e consagra suspensão levemente elevada para altura ao solo que é ligeiramente maior, e sem modificar uma vírgula à receita de versatilidade conhecida do veículo multiusos da marca: além de 2.ª fila de três bancos individuais, há um 3.º anel, que pode acolher dois ocupantes em ótimas condições de conforto, em também bancos individuais, que se podem rebater ou, mesmo, retirar do interior do veículo. Assim, sete lugares possíveis a bordo ou sem número de configurações do interior para arrumar bagagens, com área tão desafogada que pode chegar a gigantescos 3000 litros de volumetria útil. Já o acesso à arejada secção posterior do automóvel está muito facilitado pela presença de duas portas deslizantes. Espaço para pequenas arrumações no interior não falta.
O Peugeot Rifter (modelo saído da linha de montagem da fábrica de Mangualde do Grupo PSA), também se apresenta como espécie de versão cool do comercial Partner. Mais ainda nesta mais dotada versão GT Line, que ostenta belíssimas jantes de efeito diamantado, de 17’’. As barras de tejadilho, grelha frontal e capas dos retrovisores pintadas a negro. O interior é marcado pela aplicação do conceito i-Cockpit da Peugeot, com volante de pequenas dimensões – que nesta versão é precisamente igual ao das versões GT Line do novo 508 – e painel de instrumentos em posição sobrelevada. Não há diferenças enormes para o VW no que respeita a qualidade dos materiais aplicados ou no cuidado empregue na montagem, mas na apresentação, muito mais moderno e atrativo o Peugeot.
Atrás, três bancos individuais, ao melhor estilo monovolume, embora sem possibilidade de ajustar ângulo das costas ou correr longitudinalmente, sobre calhas. Por outro lado, os três bancos são individualmente rebatíveis por inteiro, originando superfície de carga praticamente plana com a (enorme!) bagageira. Possível é, também rebater as costas do banco do passageiro dianteiro, o que possibilita o transporte de objetos de até 2,5 m de comprimento entre tablier e portão da mala.
Face ao rival de ocasião, o automóvel francês impõe-se pela avantajada largura do interior, a riqueza dos equipamentos de conforto e segurança é outro dos fortes aliciantes da versão GT Line do Rifter, onde não falta alerta de aproximação com travagem de emergência, reconhecimento de sinais de trânsito de limite de velocidade ou aviso e correção de volante face a saídas involuntárias da faixa de rodagem. Ou ainda a possibilidade de incluir cruise control adaptativo e aviso de presença de veículo no ângulo morto.
PEUGEOT RIFTER
No Rifter, os passageiros dos lugares traseiros estão ainda servidos por regulação de intensidade da climatização e por duas mesas tipo avião colocadas nas costas dos bancos da frente. Permite a abertura independente do óculo traseiro para que se possa aceder, por exemplo, à caixa de arrumos possível de montar sobre a zona da bagageira.
Na estrada, o conforto de rolamento pode ser mesmo argumento para convencer potenciais clientes, com ligações ao solo de afinação branda, que filtram eficazmente as irregularidades do piso. Dinamicamente, os dois modelos não escondem a génese de derivado de comercial, com centro de gravidade elevado, ao jeito de adaptação a monovolume para o transporte passageiros, mas apresenta comportamento equilibrado e seguro, apenas apresentando ligeira tendência para mergulhar a dianteira nas curvas mais apoiadas.
VW CADDY
O motor 2.0 TDI de 102 cv apenas satisfaz quer nas acelerações, quer nas retomas de velocidade, embora não se seja fácil manter andamento despachado com lotação esgotada a bordo. Nessas situações, o Caddy Alltrack ressente-se de alguma falta de fôlego nos regimes médios, além de estar associado a caixa manual de 5 velocidades, com um escalonamento longo, de forma a favorecer consumos contidos. Esses, sim, estão em bom plano. O motor 1.5 BlueHDI no Peugeot, na mais potente variante de 130 cv, confere condução mais refinada ao Rifter, com performances de nível superior, que resultam também da associação a caixa de relações mais curtas.
Variantes de passageiros dos veículos comerciais ligeiros continuam a ser alternativas desvalorizadas pela grande maioria dos chefes de família, mesmo dispondo de fortíssima lista de trunfos para os adeptos de automóveis funcionais: espaço para dar e vender, versatilidade e preços acessíveis/atrativos. Evidente piscadela de olho aos clientes dos mais convencionais monovolumes compactos, que se expressa na modularidade excecional dos habitáculos. No frente-a-frente, condução mais confortável, prestações mais convincentes e muito melhor relação preço/equipamento explicam vitória sem espinhas do automóvel da marca do leão.