Parece magia como os dotes de Luís de Matos, mas capaz de nos fazer ir parar... ao Júlio de Matos! A Mercedes fez o trabalho bem feito, com a (muito) rentável e (cada vez mais) procurada AMG a aplicar as verbas recolhidas das vendas em apurado plano de Pesquisa e Desenvolvimento. Resultado: em números, o AMG 63 S, com 612 cv, é o mais potente e rápido Classe E de sempre; em sensações, também nenhuma dúvida, o Classe E com o perfil que nunca existiu, inscrevendo-se no clube das mais emocionantes e loucas berlinas dinâmicas (mesmo incluindo neste rol o Porsche Panamera Turbo).

O cruzamento tecnológico é vasto e rico em conteúdos, partindo da utilização do bloco V8 biturbo (também existe na versão E 63, com 571 cv), aqui esticado aos 612 cv/850 Nm, ao qual foi adotado praticamente impercetível sistema de desativação de quatro cilindros para incutir o agora tão ecologicamente correto espírito de contenção (como se tal fosse prioritário ao carro que é e a quem o vá conduzir, contando mais para o número das emissões) que trabalha em sintonia com caixa automática de 9 velocidades e fantástico sistema de tração integral.
Sim, fantástico, pois é a partir da forma como a potência é gerida e distribuída pelas rodas que o condutor consegue timbrar o seu estilo ao volante, devidamente a cargo do sistema Dynamic Select que ajusta todos os parâmetros ligados à condução, somando o modo Individual para cruzamento do setting ideal de cada condutor.
Como já vem sendo hábito nos AMG, o ESP inclui função Sport capaz de conferir alguma libertinagem dinâmica (especialmente quando cruzado com o modo de condução Race, o mais radical), admitindo, igualmente, desativação total do controlo de estabilidade.
E quão versátil sabe ser este Classe E, de imagem tão peculiar, de sonoridade tão estridente e fogosa (possível de ampliar via opcional escape desportivo), mas que se conduz bem em cidade, sem esticões no pára-arranca no modo Confort, por contar com dócil afinação da transmissão. Só os consumos, mesmo com start-stop e a referida desativação de cilindros continuam a roçar o... pornográfico, independentemente da forma como seja guiado: abaixo de 10 litros é magia de Luís de Matos.

Além das diferenças de potência entre 63 e 63 S, este último soma inédito modo de condução Drift; ou seja, todo o manancial mecânico passa a chegar apenas às rodas traseiras, primeiro como que impondo respeito, depois como que se tornando vício! Porque esta gigante e pesada berlina evidencia notável e percetível equilíbrio dinâmico, com lastro bem distribuído pelos eixos, direção muito tátil e com o peso certo para leitura da posição das rodas; tudo casado com um imediato e raivoso despejar de força nas rodas posteriores, conseguindo elevar a dinâmica deste Classe E à de autêntico supercarro!
Como prova, ficaram os elevados ângulos de deriva conseguidos sem que o carro entrasse em pião, facilmente recuperáveis mesmo quando a direção cheirava o batente. E, depois, nada difícil voltar a apontar as duas toneladas para o local que se deseja, seguindo o E 63 S a sua vida em modo velocidade da luz, composto e bem seguro!
Desejando-se mais algum civismo operacional, o certo é que o sistema de tração integral 4Matic, de trabalho amplamente variável, embora tomando sempre o eixo traseiro como destino preferencial, torna-se a principal fonte de alegria e de eficácia deste automóvel, em que a brutalidade se torna numa forma de ser!
Olhando para os valores das acelerações, imagine-se o que é ser catapultado em 3,3 segundos até aos 100 km/h, já para não falar nos somente 10,8 s para alcançar os 200. Pelo que, em qualquer reta de um quilómetro, não será difícil aflorar os 250 km/h de velocidade máxima limitada – desbloqueada com o opcional Pack AMG Drivers. E isto, depois de tudo ser e estar devidamente apreendido e processado pelo cérebro, rapidamente se transforma numa constante vontade de velocidade furiosa, até porque no vanguardista habitáculo do Classe E se sente uma áurea de total segurança.
Só o conforto, mesmo com sistema pneumático e de amortecimento variável, é sempre... desconfortável. Mas só assim a Mercedes conseguiria aguentar tamanho potencial tecnológico, colocar no chão e aproveitar o mais ínfimo pedaço de casco de cada cavalo!

Nestes autênticos efeitos de catapulta, deve homenagear-se a caixa automática de 9 relações (que em modo Race obriga a acionamento manual através das patilhas colocadas no volante), nem sequer respondendo com kickdown pisando-se o acelerador a fundo, deixando, por isso, o condutor 100% autónomo sobre a carga a aplicar à saída das curvas. As desmultiplicações são repentinas, mas já às reduções parece faltar um pouco de ímpeto. Possivelmente estaremos a exagerar na escala de brutalidade, mas já que tudo o resto estava a saber brutalmente bem... queríamos mais!
Em automóvel capaz de gerar ao seu condutor ritmos alucinantes que provocam sensações tão ou mais vertiginosas (e difíceis de expressar nestas linhas) impõe-se sistema de travagem potente, de base com discos de material compósito e de diâmetro superior aos do AMG E 63, estancando o frenesim com prontidão e muito satisfatório grau de resistência à fadiga. Que, seguramente, estará melhor entregue ao opcional sistema cerâmico (que não experimentámos).
A vista lateral é ainda composta por jantes de 20’’ e pneus 265/35 à frente e 295/30 atrás, medidas que nos pareceram perfeitas tanto no aproveitamento da motricidade (em modo duas ou quatro rodas motrizes) como também na sempre importante leitura permitida, seja ao eixo direcional ou ao motriz (quando só atrás).
Porque quem procura automóvel como este, além da imagem soberbamente trabalhada à qual podem ainda ser somadas diversas personalizações (caso do desenho e cor das jantes e do Pack Carbono exterior, ambos presentes na unidade testada), parte em busca de sensações fortes. E aqui irá encontrar talentos que poderão envergonhar modelos como Nissan GT-R ou mesmo o interno desportivo AMG GT S.
E não falamos apenas das estonteantes velocidades alcançadas em reta, mas sim da forma com que este carro consegue curvar, a ritmos estrondosos, que, mesmo à dureza da suspensão e à excelente qualidade dos pneumáticos, quando exigida eficácia máxima ao chassis, conte-se com um ligeiro dobrar do pneu em curva. O que só reflete a capacidade de aguentar forças laterais...

No interior, presença de volante específico e ótima pega em alcantara nas zonas de maior contacto, além de head up display, de série, desde logo pensado na necessidade de não se ter de tirar os olhos da estrada! Porque, aqui, cada quilómetro se transforma em meros centímetros de... insanidade! Já as bacquets em pele e alcantara, com múltiplos ajustes elétricos (incluindo suportes laterais das pernas e da zona lombar) mereciam estar incluídas no rol de série, se bem que em nada facilitem entradas e saídas. O sistema de som Burmester 3D, excelente, só será utilizado em cidade ou cumprindo-se os limites legais de velocidade...