Não apontei o preço estapafúrdio, a interminável lista de caríssimos opcionais ou o consumo elevado como defeitos? E será que o fiz porque sou podre de rico e o meu critério de preços é tão excêntrico como este Bentayga? Claro que não. Se o fosse, estaria provavelmente numa ilha paradisíaca e não a escrever sobre automóveis. Sendo certo que não perdi o juízo ou a razoabilidade, deixe-me explicar a razão com algumas perguntas: este Bentley, como aliás todos os outros modelos do fabricante britânico, é caro para quem? Para o comum dos assalariado? Óbvio que não, para esses não é caro, é simplesmente impossível. A não ser que tenhamos em casa um Cristiano Ronaldo em potência ou que ganhemos no Euromilhões, o que em termos de probabilidades é inferior a ser atingido por um trovão. Por isso, entendi não inscrever preço, opcionais e consumo como defeitos. Quem compra carro por este preço estará mesmo preocupado se o consumo é de 14 ou 18 litros aos cem? Arrisco escrever que não.
Falemos então na novidade maior deste Bentayga, que dispõe agora de V8 4.0 com injeção direta, sobrealimentação biturbo e programa de desativação de cilindros que contribui para maior eficiência, diminuindo consumos e gases de escape. Este V8 está já instalado no Porsche Cayenne Turbo e no Lamborghini Urus, surgindo no Bentley acoplado a caixa automática de 8 velocidades com função manual comandada sequencialmente em patilhas no volante e modo de condução à vela, com o Bentley a mover-se por inércia, em ponto morto, sistema que ativa-se em 5.ª e 8.ª ao levantar o pé do acelerador, solução ótima para condução poupada, em velocidade segura e no máximo conforto, parâmetros que merecem avaliação cinco estrelas. Mas, confesso, sabendo que há 550 cv e 770 Nm à disposição, é difícil pensar em poupanças (talvez tenha nascido para ser rico...), pelo que não resisto a escapadela noturna à minha pista de testes preferida: a Serra de Sintra.
Modo Sport ativado, caixa na afinação mais desportiva e vamos a isto! O arranque é absolutamente impressionante, demorando 4,6 segundos de 0 a 100 km/h. E sim, estou consciente que há eletrodomésticos, perdão, carros elétricos que fazem melhor, mas sei também que não o fazem com esta sonoridade que ecoa entre os pinheiros da serra, deixando no ar a sensação de que há uma trovoada mesmo por cima de nós. À primeira curva, hesito um pouco, o Bentayga é grande e pesado, mas a direção direta e precisa e a suspensão pneumática que parece moldar o carro à estrada dão-me confiança. Há quatro alturas da suspensão à disposição e possibilidade de seleção da firmeza entre os modos Comfort e Sport; no primeiro, rolamento suave sem redução das competências dinâmicas; o segundo minimiza os movimentos da carroçaria mantendo o conforto, mesmo que diminua a capacidade de filtragem do piso. Há mais dois modos: Custom (personalização) e Bentley, que adapta o comportamento da viatura de forma 100% automática.
Seleciono o modo Sport e 200 metros depois arrisco na apertada viragem à esquerda Nenhum sobressalto, passagem em conforto, oscilação mínima da carroçaria, níveis de aderência ótimos. A tração integral atua de forma automática, privilegiando o nível máximo de aderência. A unidade que testei estava equipada com o sistema Bentley Dynamic Ride, sistema de barras estabilizadoras ativas que torna o Bentayga eficientíssimo quer em curva, aumentando a firmeza para garantir a melhor trajetória, corrigindo as reações de desequilíbrio das transferências de massa e aumentando agilidade, precisão e segurança. Conhecia a teoria do Dynamic Drive, mas a eficácia prática do sistema surpreendeu-me, sobretudo por tratar-se de carro tão grande e pesado, teoricamente pouco habilitado para voltas e reviravoltas...
Além dos modos de condução e de regulações referidos, as Bentley propõe especificação todo o terreno (6162 €), que inclui quatro modos: Neve/Relva, Gravilha, Lama e Areia. Acredito na eficácia do sistema, mas faltou-me coragem para sujeitar o Bentayga a exame rigoroso em gravilha, areia ou pedregulhos. Contudo, num momento de arrebatamento, levei-o para um estradão de terra batida, onde o guiei em bom ritmo por meia dúzia de quilómetros. A nuvem de pó atrás do Bentayga foi épica! 322 mil euros a fazer pó. Lindo! Quero ver um ricaço fazer isto.