'Que Peugeot é este?'. Foi esta a pergunta mais frequente ao longo da semana em que ensaiámos a nova berlina de segmento D da marca francesa. Que Peugeot moderno é que, de uma maneira saudosista, copia elemento de estilo que distinguiu alguns dos modelos mais icónicos do fabricante, como o 504 lançado na década de 60, colocando o seu número 508 na ponta do capot, uns centímetros acima do símbolo do leão dominante na grelha pontuada a cromado.
O motivo de tanto sururu explica-se de duas formas: automóveis brilhantemente desenhados apaixonam; e sempre que pertencem a um fabricante de grande volume provocam um sentimento de maior proximidade. E como foi cobiçado este leão! Problema: não terá o posicionamento de preço canhão que conhecíamos de outros modelos da generalista Peugeot. Nesta versão de topo GT, por exemplo, está já perigosamente perto de alguns concorrentes ditos premium. Porque é exatamente esse cliente que este leão quer caçar!
Apesar de assumir sem medos ambições redobradas para a segunda geração do 508, modelo estreado em 2011, a Peugeot tem prioridades bem definidas: 60% do lucro da marca está nos SUV 3008/5008; 30% nos comerciais. A nova berlina de cinco portas com este design desportivo de coupé, do tipo fastback, ficará sempre confortável com o estatuto de carro de imagem. E que imagem...
O capot muito baixo, a superfície vidrada reduzida e a traseira com a faixa negra transversal a toda a largura da carroçaria são alguns dos traços que achamos mais marcantes do novo 508, a par dos grupos óticos totalmente em LED, à frente a atrás. Deste exercício de estilo resultaram também mudanças importantes em termos de proporções: menos 8 cm de comprimento do que o antecessor (ou seja, menos 11 cm do que o Ford Mondeo e porte idêntico ao do Audi A5 Sportback).
A plataforma do novo 508 é a modular EMP2, com distância entre eixos inferior (2,4 cm) à da que substitui, o que ajuda a justificar o encurtamento do comprimento do veículo e a diminuição do diâmetro de viragem, para mais manobráveis 10,4 metros, menos 1,5 m do que o do antecessor.
Então, ficou mais apertado?
Há diferenças, mas o espaço para cinco pessoas a bordo é sensivelmente idêntico ao que existia até aqui. Contudo, para que a redução no comprimento e, sobretudo, o encurtamento da distância entre eixos não se traduzisse em maiores apertos no espaço para pernas no banco de trás, a Peugeot redesenhou os encostos dos lugares dianteiros, que são agora mais estreitos. Assim só menos 1 cm naquela medição, quando comparado com o carro que substitui: 72 cm até ao banco da frente contra 73. Com a colocação dos assentos posteriores numa posição mais baixa, a marca francesa tentou contrariar os efeitos do rebaixamento em 6 cm.
A manobra surtiu praticamente o efeito desejado e, havendo agora menos 5 cm na medição em altura (88 cm do assento ao tejadilho contra 93), para um passageiro de 1,85 metros de altura continuam a não existir restrições à comodidade. O habitáculo da berlina da Peugeot também ficou mais estreito 3 cm (134 cm vs. 137 cm medidos à altura dos ombros), mesmo se o único acrescento às cotas da carroçaria são 2 cm de largura que conferem à berlina, no seu conjunto, um visual dinâmico, que tem paralelo no habitáculo.
O interior adota o apreciado (pela maioria dos clientes Peugeot) conceito i-Cockpit, mas totalmente modernizado, mantendo o volante compacto com painel de instrumentos cimeiro estreado no 208, aqui em ecrã de 12,3” e totalmente digital (de série em qualquer nível de equipamento). A pretensão é aproveitar o boost de imagem trazido pelo SUV 3008 e, ao mesmo tempo, promover a imagem de marca para um patamar ainda superior. Por isso mesmo, a atualização profunda do habitáculo do 508 inclui novos critérios de qualidade de construção, com melhores materiais e maior rigor na montagem e acabamentos.
Este redobrado cuidado nota-se no toque em cada elemento que compõe a consola que se eleva em direção ao monitor tátil de 8” ou 10” e de alta resolução, libertando espaço para a criação de um compartimento de arrumação onde encontramos uma tomada USB e também se esconde prateleira para carregamento de smartphones por indução. Mas, também, na condução, pela forma como conseguiu o fabricante francês um tão bom isolamento acústico num modelo com portas sem moldura superior...
Na versão ensaiada, o Diesel de topo, motor dois litros de 180 cv, sempre bem coadjuvado pela transmissão automática de oito velocidades, cuja atuação se equipara à das melhores transmissões da atualidade. Suave, rápida e precisa nas passagens para aproximar o mais perto possível o regime do turbodiesel à faixa de funcionamento ideal, em redor das 2000 rpm, quando aquele atinge o binário máximo aos 400 Nm. Sempre que se exige menor arrastamento nas transições/acelerações mais repentinas, há botão na consola entre os bancos dianteiros para adaptar a resposta de alguns órgãos do automóvel afetos às prestações e à dinâmica. No modo mais desportivo, a direção torna-se mais direta, perdendo assistência com a velocidade; o acelerador fica mais reativo; e a resposta da caixa de 8 velocidades acompanha melhor este frenesim, encurtando também as relações.
Alinhado com as boas prestações está o desempenho do chassis e o nível do conforto, cuja compatibilização é à prova de crítica: o 508 não só é extremamente confortável, com capacidade de filtragem superior à da anterior geração.
Sobre plataforma nova, com eixo posterior multibraços (inteiramente novo), e com a possibilidade de recorrer a amortecimento variável (de série nesta versão GT, com três modos: Normal, Conforto e Sport), a Peugeot encontrou fórmula para melhorar o equilíbrio da dinâmica entre conforto e eficácia, especialmente em curva, efetivando-se a restrição dos movimentos naturais da carroçaria ao mínimo possível sem prejuízo da comodidade dos ocupantes.
O sempre difícil compromisso entre a suavidade do amortecimento e a consistência do contacto das rodas no solo passou a ser um dos mais fortes atributos da berlina com que a marca do leão concorre no segmento D. E a agilidade acima da média também; o novo 508 não é apenas bastante mais leve que o antecessor (comparando versões com motorizações idênticas emagreceu cerca de 70 kg, apesar do aumento de conteúdos de conforto e segurança), como também revela outra fluidez ao nível da condução, a dar a clara sensação de poder guiar-se com a ponta dos dedos, naquele volantezinho míni. O novo leão pode ter concorrência mais desportiva, mas não há muitas berlinas do segmento D tão ágeis...