O Porsche Cayenne e-Hybrid é apresentado pela marca alemã como um faz tudo: um SUV familiar, uma limousine de luxo, um todo-o-terreno, um desportivo e, claro, um veículo verde. Ambição desmedida? Nem por sombras, o Cayenne e-Hybrid é mesmo isso tudo. Ou melhor, quase. Analisemos então as certezas, entremeando os poucos quase.
O habitáculo é amplo e serve perfeitamente as funções de veículo familiar, oferecendo espaço e bancos muito cómodos para... quatro pessoas. O lugar central traseiro é estreito, tem assento e encosto um pouco salientes e há um túnel proeminente na zona onde se colocam os pés, o que pode causar estorvo e consequente cansaço em viagens mais longas. A bagageira também é ampla, embora tenha menos 125 litros do que as versões não híbridas, com culpa do volume das baterias. A diminuição de capacidade é importante, mas 645 litros (extensíveis até 1610 com o rebatimento dos encostos posteriores, que também admitem regulação em inclinação) já permitem transportar bagagem para uma família ir de férias sem abdicar de grande coisa. Digo eu...
Quanto ao efeito de limousine de luxo, nenhuma dúvida tenho de que o Cayenne o consegue, pois a apresentação do habitáculo é muito sofisticada e a qualidade dos materiais e a montagem correspondem aos pergaminhos da marca, sendo dificílimo encontrar algo para criticar negativamente. Mais: o conteúdo tecnológico é cada vez mais impressionante neste modelo. A decoração da consola, por exemplo, está mais limpa pela introdução de inúmeros botões touch, e a instrumentação é digital, soluções idênticas às do novo Panamera. Por fim, há um ecrã maior (12’’) para gerir o sistema multimédia, bem como as definições do automóvel.
Debrucemo-nos agora de forma mais específica sobre a versão que testámos: o Cayenne e-Hybrid conjuga motor de 3 litros V6 a gasolina, sobrealimentado, de 340 cv, e unidade elétrica de 136 cv, casamento que resulta em 462 cv e 700 Nm. Com quase 2,3 toneladas, o SUV desportivo – de uma só vez, confirmámos duas promessas da Porsche para este Cayenne – atinge 253 km/h de velocidade e cumpre o arranque 0-100 km/h em 5 segundos. Ou, de acordo com as nossas medições, em 4,8 segundos, atingindo 130 km/h em 7,4 segundos, 160 km/h em 11 segundos e 200 km/h em 17,7 segundos. O quilómetro é atingido em 23,8 segundos a 222 km/h. E sobre prestações desportivas estamos conversados, certo? Há que acrescentar ainda que em modo 100% elétrico, o Cayenne e-Hybrid chega aos 135 km/h (valor anunciado e verificado!), sendo a autonomia média (anunciada) de 44 km em modo zero emissões. As novas baterias do SUV híbrido, da Samsung, têm 14,1 kWh de capacidade, mas apenas 11 kWh são utilizados, para preservar-lhes a durabilidade.
Recorrendo a uma tomada doméstica, as baterias recarregam totalmente em 8 horas, tempo reduzido para cerca de 2 horas e meia com o carregador de bordo opcional de 7,2 kW (738 €). De série, o e-Hybrid conta com Pack Sport Chrono, com modos de condução escolhidos a partir de botão rotativo no volante, sendo que no modo Híbrido, é possível forçar a condução em modo totalmente elétrico (opção que exige tato no acelerador...), manter a carga da bateria que podemos depois utilizar em cidade, por exemplo, ou ainda forçar o carregamento via motor a combustão. Quando não nos apetece brincar aos ambientalistas, há sempre a opção de selecionar os modos mais dinâmicos, com o Sport Plus a garantir potência total e a espetacularidade da sensação de arrancar a fundo neste monstro.
Naturalmente, com estas avarias a bateria que alimenta o motor elétrico esvazia rapidamente. E é aqui que entra o maior dos quase que referimos no início deste texto: o consumo anunciado de 3,2 litros a cada 100 quilómetros é um valor indicativo para o Cayenne e-Hybrid com a bateria a 100% e mediante uma condução comedida. Na verdade, esse valor é impraticável no mundo real, pelo que as respetivas emissões de 72 g/km também o são. Ou seja, de ecológico este Cayenne não terá muito, ou só terá a espaços. De acordo com o nosso teste, será mais realista apontar uma média de 9,5 l/100 km, resultado ainda assim espantoso para um automóvel com 2300 quilos e 462 cv!
Voltando ao início do texto e às capacidades do Cayenne, refira-se que esta versão híbrida conta com todos os recursos para «Offroad» das outras versões da gama (modos Cascalho, Lama, Areia e Pedras) e que oferece condução plenamente desportiva, sendo porventura o melhor dos grandes SUV nessa matéria. Contributo importante para as ótimas prestações dá a caixa automática Tiptronic S de 8 velocidades e o sistema de tração integral conetável (antes era permanente), o que quer dizer que a entrega de binário pelos dois eixos é feita em função das condições de circulação, podendo variar entre 100% atrás e equitativa nos dois eixos.
A unidade que conduzimos e testámos estava ainda equipada com suspensão pneumática (2207 €), eixo traseiro direcional (2115 €) e direção assistida Plus (295 €), elementos que contribuem para ainda maior conforto e desembaraço dinâmico: em curvas apertadas, o Cayenne parece encolher para passar como um foguete, delineando trajetórias limpas (a direção é muito precisa e rápida) e com nulo rolamento da carroçaria. E como em qualquer Porsche, a travagem é... potentíssima.