A Mercedes trouxe o histórico conceito Shooting Brake até aos nossos dias, estreando-o no requintado CLS, em 2004, e depois replicando-o no mais compacto e acessível CLA, em 2015. A mesma fórmula que decidiu aplicar na segunda geração do modelo baseado no Classe A, misturando coupé com station para dinamizar a imagem e adicionar a distinção premium, numa carrinha de preço elevado, não muito longe da mais madura Classe C.
Face ao sucesso da anterior geração (o mesmo não se poderá dizer relativamente ao maior CLS...), a nova CLA Shooting Brake mantém as proporções, embora tenha crescido mais uns centímetros em comprimento (4,8) e em largura (generosos 5,3), não obstante o perfil afilado seja revelador de carroçaria 2 mm mais baixa, o que muito ajuda a manter excelente coeficiente aerodinâmico, de 0.23.
Apesar do visual mais dinâmico, com distinto capot do motor, face ao simples Classe A, e ausência de molduras nas janelas das portas (ao melhor estilo coupé), a Mercedes reforçou o lado prático da Shooting Brake em relação ao modelo da anterior geração, com destaque para a superior largura do portão da mala e respetivo bocal de acesso, agora de 87,1 cm face aos 63,5 cm. De série, a tampa da mala inclui mecanismo de abertura e fecho elétrico, também possível de acionar através do comando à distância. Os revestimentos da bagageira são de excelente qualidade e a chapeleira enrola-se facilmente mediante simples toque, deixando a descoberto compartimento de carga extremamente comprido. De tal forma que pode não ser fácil chegar aos objetos que estejam colocados mais perto das costas do banco traseiro, em particular por o formato Shooting Brake como que obriga à existência de um desnível entre o plano de carga e o para-choques. O rebatimento 40:20:40 adiciona versatilidade à utilização, permitindo gerir o espaço mediante o número de passageiros e o género de objetos a transportar (cao seja mais comprido).
Embora senhora com quase 4,7 metros de comprimento, ao partilhar a distância entre eixos com a berlina Classe A, a Shooting Brake não acrescenta espaço no banco traseiro, sendo que todo o acréscimo foi transferido para a zona da bagageira e para alimentar o design esguio da carroçaria. A linha descendente do tejadilho na zona posterior do habitáculo não chega a ser incomodativa para com a acessibilidade.
A natureza coupé e aspirações desportivas fazem com que a carroçaria de CLA/CLA Shooting Brake surja rebaixada e mais próxima da estrada, o que acaba por influir (e bem) nas sensações ao volante, com a Mercedes a somar taragem específica aos amortecedores e afinação peculiar ao controlo de estabilidade (ESP). Se nada existe a apontar à dinâmica, fluída e intuitiva que resulta envolvente e direta com a estrada, a nova geração CLA muito evoluiu em conforto face ao modelo da anterior geração, tendo desaparecido aquelas pancadas mais secas que caracterizavam a atitude desportiva. Agora, a superior rigidez estrutural permite amortecimento um pouco mais brando, sem que tal afete negativamente a condução mais afincada ou crie adornar excessivo em curva. Os modos de condução do sistema Dynamic Select complementam o cocktail emotivo, ajudando a moldar as sensações às distintas respostas da direção, caixa de velocidades e motor – em opção, amortecimento variável.
As diversas possibilidades de personalização são outro dos aliciantes da atual gama de compactos da Mercedes, incluindo não só equipamentos e tecnologias, como também linhas de design que ajudam a vincar a personalidade da carroçaria e o ambiente interior. No caso da unidade ensaiada, presença da linha Progressive (2600 €), um pouco mais conservadora face à mais vista AMG, incluindo, entre outros, para-choques específicos, jantes raiadas de 18’’, faróis de tecnologia LED, climatização automática e volante multifunções (100% circular e com aplicações em preto brilhante). Os bancos, de formato Conforto, embora incluam diversos ajustes, pecam por ausência de suporte lateral, talvez exacerbado pelos (opcionais) revestimentos em pele presentes.
Bem melhor, o ambiente interior dominado pelos elementos digitais do painel central (tátil) e instrumentação, em zona única e plana, embora seja necessário investir no Pack Premium (3500 €) para que se crie o efeito hi-tech da unidade ensaiada, com diversas personalizações e incluindo sistema de navegação e excelente grafismo. De série, o sistema MBUX, dominado por software de Inteligência Artificial que permite uma quase conversação aquando a utilização de comandos por voz. Mas nunca esquecer que dizendo a palavra «Mercedes» o sistema ativa-se automaticamente, esperando por mais comandos...
A versão 200 d está a cargo de motor Diesel de 2 litros e 150 cv que trabalha em conjunto com a caixa automática de dupla embraiagem e 8 velocidades, motivando a condução despachada fruto das excelentes performances. A caixa tanto inclui função velejar para minimizar os consumos (que poderão rondar os 5 litros), como no modo Sport e mediante as patilhas no volante permite ótima exploração de motor sempre lesto a subir de rotação e capaz de abraçar o dinamismo inerente a uma carrinha tão distinta e cara.
Não restam dúvidas quanto à diferenciação estética e imponência de uma carrinha com proporções desportivas, em formato derivado de coupé, em que até os vidros das portas dispensam molduras. Mas também é certo que a CLA Shooting Brake é baseada no Classe A, ou seja, de interior bem mais apertado face, por exemplo, a uma C Station (de outra configuração, incluindo tração traseira), com curto diferencial de preço... O CLA é modelo para quem procura distinção aliada a dinâmica mais sensorial.