Nas etiquetas que sempre publicamos no final dos nossos testes e em que destacamos os aspetos mais positivos e negativos dos automóveis, é comum que seja a lista do sim a mais preenchida. Não por simpatia ou condescendência da nossa equipa em relação aos fabricantes, mas tão simplesmente porque a evolução da indústria fez com que, entre outras coisas, já não existam, na verdadeira aceção do termo, carros maus. Contudo, situações há, em que o desequilíbrio é demasiado flagrante para não ser destacado.
É o caso deste Mercedes Classe E híbrido a gasolina que testámos, muito forte em todas as vertentes analisadas – vá, o degrau na bagageira é um ponto menos positivo, mas ainda assim, o espaço do compartimento é vasto –, confirmando a ideia de que a solução híbrida é, para já, a mais racional dentro das novas formas de propulsão. Cedemos à tentação de colocar o preço elevado na lista do não, pois não há no mercado nenhum automóvel com tecnologia comparável que seja efetivamente mais barato. Optámos, então, por nos cingir somente ao automóvel e à tecnologia.
A solução híbrida combina motor 2 litros a gasolina com 211 cv e 350 Nm e unidade elétrica de 90 kW, alimentada por bateria de iões de lítio, sendo o conjunto operado através da caixa de velocidades 9G-Tronic otimizada para funcionamento híbrido. Motor elétrico e tecnologia adjacente são iguais às utilizadas no E 300 de, variante híbrida a gasóleo que também já testámos.
Este E 300 e (potência total de 320 cv e binário máximo de 700 Nm) é proposto por 67.500 €, enquanto o E 300 de (306 cv e os mesmos 700 Nm), custa 69.900 €, isto só para posicionar as duas propostas em que a Mercedes utiliza a mesma tecnologia híbrida. Nesta versão a gasolina, as prestações são mais do que convincentes, como provam os resultados das nossas medições: aceleração 0-100 km/h em 5,4 segundos e 0-200 km/h em 20 s, recuperação 60-100 km/h em 2,7 s e 80-120 km/h em 3,4 s. A velocidade máxima está limitada a 250 km/h, sendo que a velocidade máxima no modo 100% elétrico é de 135 km/h.
Contudo, não aconselhamos a que se procure amiúde o registo máximo em modo elétrico, pois dessa forma a autonomia verde esfuma-se num ápice. No entanto, se a bateria estiver totalmente carregada e optarmos por uma condução normal, sem grandes acelerações, a autonomia elétrica chega sem problemas aos 35 km. E isto incluindo já os três tipos de percursos convencionais (cidade, estrada e autoestrada). Por outro lado, se guardarmos a bateria para utilizar exclusivamente em cidade, alternando para-arranca com andamentos lentos e médios, por exemplo, é possível fazer mais de 45 km sem gastar gota de gasolina.
O sistema híbrido do Mercedes conta ainda com opção de carregar bateria em andamento, utilizando exclusivamente o motor de combustão. Fizemo-lo e verificámos um aumento do consumo médio na ordem de 1,5 a 2 litros, pelo que há que ponderar a real validade de utilização desta opção, pois a quilometragem que posteriormente faremos em modo elétrico talvez não compense o aumento de consumo de gasolina. Muito vantajoso é sem dúvida, jogar entre a utilização da bateria (carregando-a diariamente ou sempre que se possa em wallbox ou tomada doméstica), guiando em modo exclusivamente elétrico, e o modo híbrido, em que o sistema faz a gestão da carga da bateria e do motor a combustão, carregando a primeira sempre que há desaceleração ou travagem. Essa é, aliás, a única forma de obter um consumo médio na casa dos 2,3 litros a cada 100 quilómetros. É que se a opção for guiar o carro sem carregar a bateria em fonte externa – o que parece ser a prática mais comum entre os proprietários de híbridos plug-in –, esperando que o sistema híbrido faça o milagre da multiplicação da carga, os consumos sobem facilmente para 7 ou 8 litros aos 100 quilómetros. Ou mais ainda se abusar do acelerador.
Bem alinhado com as prestações está o conforto e o desempenho dinâmico. O Classe E é um automóvel tecnologicamente muito avançado e conta com diversos dispositivos que auxiliam a condução, o conforto e a segurança, nomeadamente a suspensão adaptativa, de série nesta versão 300 e.
Desde o momento em que nos sentamos ao volante que tem início uma experiência de condução de elevadíssimo nível. Não só pela posição em frente ao volante, como pela qualidade dos materiais e da construção de tudo o que nos rodeia. Os bancos são muito confortáveis e ergonómicos e todos os comandos relativos à condução e ao sistema de infoentretenimento estão bem posicionados e são fáceis de utilizar. Ligamos o carro e o silêncio é total, bem como a filtragem das irregularidades do alcatrão, que só mesmo quando os pneus enfrentam crateras no alcatrão deixam passar alguma energia que, ainda assim, não belisca a comodidade. Depois, é a forma elegante como se posiciona em cada curva, adornando pouco e reagindo com prontidão aos movimentos da direção. Obviamente não é um desportivo, nem oferece sensações semelhantes, mas tudo funciona com competência e conforto.
Especula-se muito, mas ninguém tem 100% de certeza sobre o que acontecerá no futuro no que toca às formas de propulsão dos automóveis, pelo que os seus fabricantes vão apresentando alternativas tendo em conta os negócios e as cada vez mais apertadas regras ambientais. Os carros elétricos ainda não estão democratizados e nem os híbridos - entre estes, ainda muito menos os das marcas premium. Mas são soluções como a da Mercedes que mostram caminhos.