As variantes de passageiros dos veículos comerciais ligeiros compactos tornaram-se mais do que derivações ou adaptações dos laborais furgões a automóveis de turismo convencionais, aproximando-se o mais (que é) possível destes últimos, nos padrões de design, construção, equipamento, dinâmica e prestações. Acrescentando-lhes espaço, versatilidade, modularidade e um preço mais acessível.
Mas será que chega para serem alternativas apreciadas? As vendas – em Portugal – dizem que não. Os nossos automobilistas depreciam a eventual (mas efetiva) conotação com os referidos furgões. Terão motivos concretos? Sim, têm, porque estruturalmente não podem distinguir-se significativamente daqueles, apesar de todo o trabalho dos fabricantes na sua dotação, nos domínios da imagem, da sofisticação, do acolhimento e até das suspensões, refinando-as para um desempenho mais adequado à utilização particular, de turismo e lazer, e muito menos a afazeres profissionais. Esse empenho dos construtores é meritório, e deve ser ponderado pelo consumidor, que pode dispor de um automóvel praticamente imbatível na oferta de espaço para ocupantes – incluindo opção de lotação de sete lugares – e carga, em ambas atingindo cotas só comparáveis às de veículos de segmentos (muito) superiores.
Exemplo da nova geração destes modelos é o Citroën Berlingo – produzido na fábrica da PSA em Mangualde, ao lado dos seus modelos estruturalmente gémeos, Peugeot Partner (cuja variante comparável é o Rifter) e Opel Combo (Life) –, proposta dirigida a clientes de monovolumes/crossovers compactos de cinco ou sete lugares, apregoando-a com espaço e modularidade excecionais no interior, concebido com superior qualidade de materiais e acabamentos, recheando-o com pacotes extras de equipamentos modernos, e melhorando-lhe as credenciais dinâmicas.
A estética evoluiu igualmente com uma colagem ao ar de família dos mais recentes automóveis da marca. Em destaque, na unidade em teste, o denominado Pack XTR, que confere ao Berlingo (Classe 1 nas portagens aderindo-se à Via Verde), na variante XL (a de comprimento exterior e distância entre eixos maiores) e com sete opcionais lugares (com o custo de 500 euros), uma imagem mais aventureira, de inspiração nos crossovers da moda.
Para ser um referencial automóvel multiusos, o Berlingo XL (mais 35 cm do que a variante M, num total de 4,75 metros e com mais 19 cm entre eixos) de sete lugares dispõe no seu interior de três filas de bancos individuais, incluindo a terceira, à retaguarda, de dois lugares com habitabilidade generosa. Poucos modelos compactos oferecem cotas interiores tão amplas, incluindo para a bagagem com todos os bancos instalados (209 litros). Os dois da 3.ª fila rebatem e extraem-se, embora o peso e volume desmotivem a (frequente) remoção. Os três bancos da 2.ª fila rebatem (na totalidade), permitindo configurar uma superfície de carga plana e ampliá-la até gigantescos (quase) 2700 litros de volumetria útil.
O acesso à secção posterior do automóvel está facilitado pelas portas deslizantes e espaço(s) para pequenas arrumações no interior abunda(m).
A nova plataforma, que combina elementos da base rolante da geração anterior com a mais moderna EMP2, que serve de base aos modelos compactos de turismo mais recentes do Grupo PSA (incluindo Opel), autoriza melhor compromisso entre competência dinâmica e conforto ao Berlingo. Na estrada, confirma-se que o conforto de rolamento pode ser mesmo argumento para convencer potenciais clientes, com ligações ao solo de afinação branda, que filtram eficazmente as irregularidades do piso, mas também que o Berlingo não consegue anular a génese de comercial, para o que contribui o centro de gravidade elevado, mas apresenta comportamento equilibrado.
Ao motor Diesel 1.5, na versão mais potente com 130 cv, associado a caixa manual de seis velocidades, não falta fôlego, dando conta do recado mesmo com lotação esgotada e/ou muita carga a bordo. Nestas condições, o consumo sobe de 6,5 l/100 km para 8 litros.
Mais de 30.000 euros – no caso desta versão com Pack XTR, incluindo opcionais, mais de 35.000 € – é um preço elevado, quiçá demasiado, a pagar pelo que pretende (pelo seu fabricante) ser alternativa aos compactos convencionais, com as mais-valias de espaço e de lotação à medida de famílias numerosas (até sete ocupantes) com previsto (mas não confirmado) apelo de value for money. Todavia, por aquelas qualidades, é uma proposta a considerar.