Talvez não se esperasse tanto de um automóvel crossover encaixado no segmento B, mas a Nissan teve o cuidado de afinar tudo ao pormenor no que diz respeito à versão de lançamento do Juke II no nosso país, designada por Premiere Edition. Às vezes, de facto, não existe uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão e isso deve ter sido levado em conta pela marca. Na essência, o modelo da Nissan é um ótimo produto da cabeça aos pés, agora assente na plataforma CMF-B da Aliança Renault/Nissan, a mesma que é usada para o Captur II e Clio V.
As proporções são comuns às das do antecessor, mantendo alguns dos traços e o formato do tipo coupé, sendo possível destacar a linha de cintura elevada, teto descendente e faróis redondos à frente, por exemplo. Mas a nova base esticou o comprimento (7,5 cm) e também aumentou a distância entre eixos (10,5 cm), pelo que o espaço a bordo beneficiou disso, algo que se percebe na distância atrás para as pernas dos ocupantes, entre os assentos e os encostos da frente, mas igualmente na zona da bagageira, agora com 422 litros, sendo possível rebater os bancos (60:40) para alcançar o total de 1088 litros. O acesso é funcional e o estrado de carga pode ser colocado em duas posições, uma delas quase à face do rebordo de entrada, num plano elevado. O portão é um bocado pesado e as pegas embutidas para ajudar a fechar não são muito práticas, exigindo esforço. Nada de muito grave!
Os puxadores das portas atrás também são pequenos, à semelhança do anterior modelo, dissimulados junto aos pilares (a preto), em cima, não permitindo uma abertura fácil. Pormenores...!
Atrás, por sua vez, se o espaço para as pernas dos passageiros até aumentou, a posição dos assentos é baixa e pouco panorâmica, embora melhor do que no C-HR da Toyota, por exemplo, ao mesmo tempo que a altura ao teto não é muito ampla devido à forma do tejadilho. Apesar disso, não há constrangimentos para os utentes de maior estatura, mesmo que os encostos até estejam num plano vertical, a direito, e o forro em pele/Alcantara seja duro, em especial na zona lombar. O túnel central não é demasiado intrusivo, embora nesse lugar se viaje numa posição elevada. E é normal que assim seja. A largura atrás, entre portas, está ao nível do que é comum na maior parte dos concorrentes, entre os quais se podem incluir alguns dos SUV best-seller da categoria, como o Peugeot 2008 ou o Renault Captur, por exemplo.
Face a estes, o Juke projeta uma imagem diferenciada (e até mais agressiva!), tendo melhorado vários aspetos e modernizado inúmeros conteúdos, numa conceção avançada que integra diversos assistentes eletrónicos à condução, entre os quais sobressaem os alertas de distância e colisão frontal (ProPILOT), a travagem automática (inclusive para as manobras à retaguarda), avisos de transposição de faixa (inclui correção de trajetória) e de ângulo morto, além das câmaras de vigilância a 360º com sensores acústicos de parque (à frente e atrás). É ainda visível a grande mudança do interior, ainda para mais nesta versão Premiere Edition, a qual inclui bancos do tipo bacquet, à frente, e forro misto especial em pele preta, além do revestimento em Alcantara de certas zonas, nomeadamente do tablier, consola central (junto ao seletor) e laterais das portas. O ambiente é premium e reforçado pela ótima ergonomia, assim como pelo ecrã tátil de 8’’ no centro do tablier, a cores, que controla as funções de bordo, a par do abundante nível de equipamento, incluindo sistema Bose com colunas especiais nos apoios de cabeça, à frente.
E agora, a condução...
A posição ao volante está muito bem centrada, tendo ajustes fáceis e corretos, inclusive sem estar num plano demasiado elevado, e isto apesar do conceito SUV. Esse é um ponto que melhora a relação com a estrada, até porque a direção suscita um tato muito preciso e movimentos exatos por parte das rodas, aqui com Goodyear Eagle F1 225/45 e jantes em liga leve de 19’’. A aderência ao asfalto é elevada e o empenho dinâmico aproveita isso, sendo visível uma grande eficácia em todas as situações.
O controlo de estabilidade é sensível e aparece de imediato quando se exagera, embora até seja permitido atirar este Juke para dentro das curvas e sair de lá de forma incólume, sem deslizes ou oscilações da estrutura. Impecável! Há muito que não víamos um SUV deste género com este tipo de reações, tão coladinho ao asfalto e com tanta eficácia, gerando confiança e um prazer que nem sempre está presente nos automóveis de hoje. O mérito pertence ao chassis, à direção e às tais ligações ao solo, embora haja o reverso da medalha, uma vez que se registam batidas secas e reações firmes da suspensão no mau piso. O que é (muito) bom para a dinâmica, nem sempre é o ideal para o conforto!
O ruído de estrada também podia ser inferior e, devido à altura, há certas ressonâncias na zona frontal, em especial junto dos retrovisores. Nada de mais.
O bloco de 3 cilindros não é nada ruidoso (nem é evidente essa arquitetura...) e as prestações estão dentro das expectativas, embora se pudesse esperar mais ao nível das recuperações. A caixa DCT7 (dupla embraiagem) exibe maior arrastamento a baixa rotação, aí mais bruta, mas o sintoma atenua-se à medida que se ajusta à determinação do motor, cuja resposta é sempre progressiva, sem fossos. O modo Sport acelera todas as reações e, mesmo aí, o consumo não é exagerado: 6,5 a 7 l/100 km. No ECO, mais pausado, está perto dos 6 l/100 km.
O desenvolvimento do Juke II parece ter tido como ponto de partida o próprio formato do anterior, preservando até alguns traços identificativos do original (2010), tais como os faróis redondos à frente e as luzes diurnas com efeito de boomerang, por exemplo, sem sequer renegar o conceito de crossover coupé, por culpa da linha de cintura da carroçaria (mais elevada) e do tejadilho a descer até à retaguarda. As dimensões exteriores aumentaram graças à nova plataforma e isso também se reflete na amplitude a bordo, ao mesmo tempo que o interior é completamente novo. A dinâmica surpreende pela grande eficácia, numa versão 1.0 DIG-T equilibrada, quer nos consumos, quer nas prestações.