O ID.3 foi o primeiro produto do investimento de 33 mil milhões de euros do Grupo VW, um terço dos quais dedicado à eletrificação de gama exclusiva na marca que reivindica a criação do carro do povo, com o mítico Carocha, e que agora ambiciona o pioneirismo da democratização da eletromobilidade. Por todos estes motivos, com acrescida expectativa e uma equiparada exigência subtemos o compacto elétrico a teste, sem reservas sobre o essencial a esclarecer: se o automóvel está ao nível das pretensões, o que desde logo significa posicionar a nova VW na esfera da Tesla, mas mais acessível nos preços, mais para o povo.

No design do ID.3 não há rasgos de radicalismo a identificar a natureza elétrica, o que se aplaude, apenas a distingui-lo entre os congéneres pela novidade e ineditismo, pela positiva. Ao acedermos ao interior, ao invés, abre-se um mundo novo conceptual na VW. Minimalismo extremista, eliminação do (considerado) supérfluo para a criação das linhas limpas que vieram para ficar com a eletrificação do automóvel.
Por isso, digitalização quase total, através de comandos táteis, no volante e consola (para acesso direto às respetivas funcionalidades) e no tablier (iluminação), ou através do ecrã sobre o painel de bordo, de dimensões comedidas (10’’) – distanciando-se dos da Tesla (e dos seus continuadores) –, mas com grafismo legível e moderno. Diante do condutor, o painel de instrumentos tem metade do tamanho (5’’) e a mesma clarividência, e acopla o seletor da caixa de velocidades, inspirado no do BMW i3. Assim, libertação do espaço entre bancos para inestéticos, mas úteis porta-copos e outros arrumos.
O privilégio à simplicidade arrisca-se ao simplismo, que é corroborado pela qualidade mediana dos materiais de construção do habitáculo, revestimento dos bancos incluído. Não é baixa, esclareça-se, apenas inferior ao que estamos habituados na VW, acima dos modelos de segmento A da marca, distante da do Golf, a sua referência média. Todavia, o bem-estar a bordo que se exige a um compacto familiar não tem mácula. E o mesmo para a habitabilidade, que, em contraponto à qualidade geral, superioriza-se à do best-seller do fabricante germânico.

Veremos se também não têm pecado a condução, o conforto, a dinâmica, as prestações e a autonomia, este último elemento fundamental num veículo elétrico. Sem contemplações, em todos estes, o ID.3 surpreende pela positiva, como produto da nova geração de elétricos, que se liberta dos trejeitos menos apreciados a estes e os deprecia face aos congéneres a combustão, e acrescenta-se das virtudes inerentes aos da sua espécie. Nos primeiros, são ténues as reações adversas à condução inerentes ao sistema de regeneração de energia nas desacelerações e travagens.
Minimizados os defeitos, potenciaram-se as qualidades aceites nos elétricos, a suavidade que advém da ausência de vibrações, ruídos e aspereza, a manobrabilidade acrescida pelo raio de viragem curto e ainda o agrado à condução motivado pela rapidez da resposta ao acelerador, que vem da potência e do binário imediato elevados: 204 cv e 310 Nm, respetivamente. Com este rendimento esbate-se o lastro de 400 kg imposto pela bateria, assegurando energia suficiente para agilizar as prestações do ID.3, como se afere da baixa relação peso-potência, de 8,8 kg/cv.

Mas não só. Promoveram-se, igualmente, algumas das melhores características transversais a automóveis com todo o tipo de motorizações, como o conforto e a dinâmica. Em ambos, mérito da estreante plataforma (MEB) específica para a gama ID, com suspensões independentes com amortecimento eficaz, em compromisso ótimo entre dinamismo e comodidade, e ainda a integração das mais modernas tecnologias de segurança e apoio à condução, incluindo a já normativa conectividade, a direção corretamente assistida. Por último, mas não menos importante (pelo contrário), a autonomia. Com carga completa da bateria percorrem-se (comprovados) 350 km, praticando uma condução económica, como um elétrico sugere.

O ID.3 é um automóvel bem-nascido, baseando-se na plataforma técnica que desde já confirma méritos vários para sustentar uma família numerosa de modelos unidos pela total eletrificação. A berlina compacta, pioneira dessa gama que aponta à democratização da mobilidade futura na VW, tem quase todas as características primordiais que se apreciam num BEV, excetuando o preço, que desde logo impede-o do epíteto de Elétrico do Povo.