Não tanto por ser automóvel rápido como uma flecha, mas porque aponta aos modelos de maior sucesso do segmento médio-familiar, e acertando em cheio nos elementos mais valorizados pelo público alvo, a palavra Karoq, retirada do dialeto de uma tribo do Alaska e significa qualquer coisa como «carro seta», assenta como uma luva no mais recente SUV da Skoda. Tem o que é preciso para alvejar toda a concorrência mais direta, a começar na imagem que, mesmo sem grandes rasgos de originalidade, encaixa no formato da moda, passando pelos níveis de habitabilidade e funcionalidade referenciais que são já cartão de visita em modelos da Skoda, sem esquecer toda a herança técnica do Grupo VW, que não se esgota na ótima plataforma MQB e nas modernas motorizações. O Karoq estabeleceu também um novo paradigma para a marca, apresentando-se recheado como os melhores. Ou quase...
Se há na classe automóvel que tem na generosa dotação de equipamentos trunfo fortíssimo, chama-se Kadjar, nome de batismo do SUV com que a Renault espera alcançar maior projeção no segmento C, apontando ao top 3 nacional da referida categoria, atingindo 10% da quota do segmento liderado pelo Nissan Qashqai, modelo com o qual o Kadjar partilha, por exemplo, a plataforma (CMF). Na revisão operada no início de 2019, imagem revista, incluindo redesenhada grelha frontal (cromada), novos faróis à frente e atrás e, especificamente para esta versão Black Edition, vistosas jantes em liga leve de 19’’, pintadas a negro. No habitáculo também há pequenas modificações com o recurso a mais aplicações cromadas/ metalizadas, materiais melhorados e redesenho da consola, incluindo monitor multimédia tátil (R-Link 2, de 7’’) de maior resolução e contraste, além de funções com controlo vocal. Há novos comandos da climatização, ao mesmo tempo que a versão testada dispõe de bancos forrados a pele e Alcantara.
O Karoq é automóvel com interior bem mais sóbrio, de linhas simples, até sem chama. Mas irrepreensível do ponto de vista da ergonomia. E com montagem e imagem de solidez que é difícil de suplantar. O modelo checo também é ligeiramente mais desafogado do que o Kadjar, sobretudo nos lugares posteriores onde é mais fácil sentar três adultos em condições ótimas de conforto. E este é apenas um dos muitos sinais da essência prática do Skoda, que ainda se demarca por amplo acesso ao habitáculo, somando a altura exata dos bancos à ampla abertura das portas. A mala, com 510 litros, não só é superior à do rival de ocasião (472 litros), com ainda pode esticar; equipado com o sistema VarioFlex dos bancos traseiros, que permite deslizá-los sobre calhas, a volumetria varia entre 479 e 588 litros, até ao máximo de 1630 litros.
Contas feitas, o Kadjar é automóvel um nadinha mais apertado, sobretudo por a largura aconselhar a apenas dois passageiros com usufruto de melhor conforto. Ainda nos contras, o ângulo de abertura das portas mais estreito dificulta na acessibilidade, obrigando a movimentos mais elásticos.
Dinâmicas que convencem
Interessa, contudo, perceber se a conceção mais quadradona do Karoq não o atrapalha depois naquilo que é o essencial: a condução. E a resposta não podia ser mais satisfatória. O estreante SUV da Skoda, com eixo de torção no trem posterior nesta variante com motor a gasolina de 150 cv, tem amortecimento de pendor firme que permite conjugar conforto e resistência à passagem por pisos mais exigentes com excelente contenção dos movimentos laterais da carroçaria. O carro checo curva bem, trava com competência e a direção, mesmo sem o feeling prodigioso de outros modelos do Grupo, é precisa q.b.. Conservador, só na imagem.
Nesta versão do SUV da marca checa, destaque para o moderníssimo 1.5 TSI com 150 cv. É a versão mais potente do evoluído bloco do Grupo VW, que trabalha sobre o ciclo Miller (tempo de expansão mais prolongado face ao de compressão), pressão de injeção na ordem dos 350 bar (contra os 250 bar do 1.0 TSI). Neste motor, a ideia é oferecer o melhor de dois mundos, doseando-se o acelerador, usufrui-se dos proveitos da tecnologia ACT, que permite a desativação de dois dos quatro cilindros do motor, para consumos aproximados aos de um milinho a gasolina moderno. Ao contrário, puxando-se por mecânica que mostra disponibilidade interessante logo a partir das 1500 rpm descobrem-se as prestações convincentes de motor de 150 cv, com ótima caixa DSG a ajudar ao bom desempenho da mecânica, quer na precisão do engrenamento como na suavidade com que opera. No Renault, sob o capot está o bloco 1.3 TCe desenvolvido com a Daimler e também disponível no Mercedes-Benz Classe A, por exemplo, cuja suavidade de funcionamento e baixo ruído são argumentos válidos.
Com 160 cv e binário de 260 Nm a partir das 1750 rpm, garante uma condução sem esforço, apesar do peso e das dimensões a jogo. A unidade progride sem hesitações desde baixo regime, mesmo que a caixa automática EDC (dupla embraiagem) não tenha um caráter desportivo e seja pouco rápida em certas trocas, embora sem arrastamento exagerado.
A estratégia parece ser a de conjugar boas prestações com consumos regrados. Problema: o Skoda faz melhor e com… menos. O binómio TSI/DSG não só é garantia de prestações mais convincentes, como parecem funcionar sempre de forma mais harmoniosa, num equilíbrio que também se traduz numa média de consumo mais interessante.
Curiosamente (e embora mantenha a genética sobrelevada dos SUV), é no Renault que encontramos a melhor posição de condução, cómoda e bem orientada com regulações por modo elétrico, de série. Olhando à relação preço/equipamento muito apetecível ou à supercompetitiva mensalidade estabelecida para o renting (ver ficha), percebe-se que o SUV da Renault tem trunfos em tudo o que está mais diretamente relacionado com a vertente negócio. Vide garantia mecânica com cobertura por 5 anos/100.000 km, contra os 2 anos propostos pela Skoda.
O Kadjar é agora taxado como Classe 1 nas portagens nacionais, com Via Verde, equipamento que o Karoq pode dispensar...
Vitória magra da Skoda serve para cumprir o protocolo, pois, entre estas versões de Karoq e Kadjar aqui em exame, o mais correto seria considerar-se um empate técnico! Vitória checa nos parâmetros Interior e Motor/Transmissão, o SUV francês vence os itens Economia e Dinâmica e os dois empatam no que diz respeito ao Conforto. Resumindo, o Skoda mais confortável, sem comprometer a dinâmica, com ótimo aproveitamento das cotas interiores num habitáculo que impressiona pelas noções de ergonomia e robustez. No Renault Kadjar, garantia, preço e recheio invejáveis.