Há coisas na vida que temos porque gostamos, outras porque precisamos, outras porque queremos e outras porque... tem de ser. O ideal seria conseguir conjugar tudo isso, todos essas premissas, do desejo à necessidade, sem esquecer a verdadeira intencionalidade da compra. E num automóvel, fruto do investimento, urge cada vez mais adequar a compra à utilização...
Mesmo com a crescente moda dos SUV, as carrinhas mantêm posição firme no mercado nacional, até porque continuam a ser a forma mais racional de garantir a prestação de serviços familiares, apadrinhada por bagageiras de generosas capacidades. E se esse for o mote, a nova carrinha Ceed não tem por agora rival à altura: a marca anuncia 625 litros para a volumetria da mala, valor recordista no segmento, mesmo incluindo os alçapões sob o piso.
Alcançar o espaço de carga é também tarefa fácil, não só pela ampla boca de acesso, como pela possibilidade de se somar tampa da mala de acionamento elétrico (600 €), muito ajudando nas aberturas/fechos, quer evitando esforços ou movimentos de braços, quer facilitando a ação quando temos as mãos ocupadas com objetos.
A gigantesca bagageira tem formas regulares, embora a zona das cavas de roda esteja bem visível. Sob o piso existem ainda três zonas de arrumação (alçapões), compartimentadas e de generosas dimensões – ou seja, são realmente úteis na acomodação de objetos mais pequenos – sendo que o espaço mais aproximado ao portão da mala tem encaixe para colocar a chapeleira caso esta não esteja a ser utilizada. Ou seja, havendo necessidade de rebater os bancos para o transporte de objeto mais volumoso ou comprido, a chapeleira pode ser acondicionada sob o piso, não prejudicando a zona de carga.
Perante tal rigor, esperava-se um pouco mais de soluções de rebatimento do banco traseiro, que se fica apenas na proporção 60:40, além de que não existe passagem entre habitáculo e mala, por exemplo, na zona central do banco (a habitualmente referenciada como passagem para esqui). Rebater as costas dos bancos origina piso de carga totalmente plano, mas a ação apenas pode ser realizada a partir do interior, não existindo na mala qualquer comando para o fazer. A chapeleira desliza sobre calhas laterais, o que ajuda ao manuseamento, só lhe faltando função de recolha automática por um toque.
A Ceed SW tem mais 29 cm à berlina de 5 portas, todos somados ao vão traseiro, sem mexidas na distância entre eixos, pelo que os esforços apontaram para o reforço da capacidade da mala. Como tal, a oferta de espaço para os passageiros atrás fica à justa com a média do segmento, além de que a reduzida superfície lateral vidrada também não ajuda a criar a sensação de desafogo interior que se sente, por exemplo, a bordo de uma Peugeot 308 SW ou numa VW Golf Variant.
Bem-estar, conforto e mecânica combinam enorme robustez e fantástica suavidade. A recente unidade 1.6 CRDi, aqui na derivação de 136 cv, mal se ouve a trabalhar, seja ao ralenti seja em aceleração. Vibrações quase não existem (nem no volante ou caixa de velocidades) e todos os comandos surgem com tato oleado e fácil de manusear. Como é o caso da engrenagem da caixa de velocidades ou da forma como a embraiagem e restantes ligações da transmissão fluem de modo refinado, sem qualquer solavanco.
O funcionamento do motor segue esta toada, podendo até pecar por excesso na forma zelosa como sobe de regime, talvez resultando da contenção de binário (280 Nm) que pode alcançar mais eloquentes 320 Nm caso o 1.6 CRDi surja associado à caixa automática de 7 velocidades. A constância de disponibilidade dos 280 Nm entre as 1500 e as 3000 rpm muito contribui para o referido comportamento da mecânica, mais focado na disponibilidade do que nas performances, feitio que acaba por estar em sintonia com a restante atitude dinâmica da Kia Ceed SW: pisar sereno e confortável mesmo com jantes de 17 polegadas (os aderentes Michelin Primacy 3 dão uma ajuda na obtenção de curta distância de travagem de emergência), o que atesta a robustez das ligações ao solo, bem patente na passagem por pisos muito degradados. Esta carrinha não cede, não trepida, não saltita (uma das vantagens do eixo traseiro de arquitetura multibraços), não cansa! Nas viagens em autoestrada, com consumos médios na ordem dos 6 l/100 km, apenas o ruído de rolamento algo exagerado poderá ser companhia menos prazenteira.
O interior da Ceed SW é por demais robusto na construção, com bons materiais no topo das portas e do tablier e nas principais zonas de contacto direto com as mãos. A zona central da consola está direcionada ligeiramente para o condutor, facilitando o acesso à maioria das funções, com destaque para o monitor tátil no topo do tablier, solução cada vez mais comum. A oferta de equipamento e de detalhes desta versão TX é bastante generosa.