Houve tempos em que os desportivos subcompactos faziam as delícias dos jovens. Mais do que atualmente, arrisca-se. Corriam os anos 90 e os pequenos GTI dominavam as estradas, ou melhor, as curvas, com tamanho comedido e imagem agressiva, mas preços à medida dos orçamentos mais restritivos. Tinham várias marcas, francesas, alemãs e até japonesas, e em comum a potência dos motores: em todos rondava 100 cv. Aqueles que a excediam eram glorificados. Foram os Citroën AX GTI e Saxo Cup, os Peugeot 106 Rally, XSi e GTi, o Renault Clio 16 V, os Volkswagen Polo GTI e o mais fervoroso G40, e até o Suzuki Swift GTI. Sonhos húmidos, desejos ardentes da malta jovem. Quem os conduzia, imperava no clã do bairro.
Quase três décadas volvidas na indústria automóvel são uma eternidade. Hoje espantamo-nos com a perda de validade dos automóveis dessa altura. Os avanços tecnológicos remeteram os pequenos desportivos irreverentes do final de século a lembranças excitantes, a protagonistas de um passado bem vivido, ainda não muito distante.
Eis que a VW surpreende com a recriação de um desses míni GTI. Convenhamos que, à parte dos consagrados e eternos Polo e Golf, poucos esperariam que o fabricante alemão desse a icónica sigla de três letras ao citadino up!. Imprevista decisão de fazer de insuspeito veículo de dimensões e conceção minimalistas, um meritório membro da honrada família de desportivos da marca. E o resultado é uma agradável revelação, não propriamente uma surpresa, de tão longa data serem os méritos da VW em fazer de pequenos grandes desportivos.
Para fazer jus à sua mestria, o construtor de Wolfsburgo pegou no motor a gasolina de 3 cilindros, 1 litro com injeção direta e turbo, debitando uma potência aproximada à dos antecessores dos anos 90: 115 cv. Uma mecânica moderna que proporciona ao up! GTI o fulgor idêntico ao daqueles. Não mais, nem menos do que o indispensável a conferir ao automóvel de 3,6 metros performances enérgicas e estimulantes para o seu condutor. A ajudá-lo, a transmissão com engrenagem manual de seis velocidades, e escalonamento e curso de seletor curtos, explorando otimamente a generosidade do pequeno motor de alma grande.
Mas não há bom desportivo sem um chassis condizente. E aí, a VW esmerou-se, ao intervir a preceito na suspensão, assegurando-lhe a rigidez e a altura ao solo (reduzindo-a significativos 15 mm comparativamente à do citadino de base) precisas para atribuir ao (reforce-se, insuspeito) veículo urbano um dinamismo excecional. A adjetivação poderá pecar por exagero, mas é o efeito agradável revelação a carregá-la. A inserção em curva é exata, sem desvios de trajetória ou reações nefastas, tudo com uma neutralidade (agora sim) surpreendente. Os técnicos alemães terão insistido na firmeza, elevando-a à condição de causa de desconforto em ressaltos mais pronunciados do piso (bandas sonoras são quase paredes), mas garantiram que fossem a origem do comportamento imperturbável e amiúde tão divertido do up! GTI.
Por fim, mas não menos importante, também não há bom desportivo que se preze sem uma imagem apropriada. E o estilista voltou a revelar-se exímio na replicação da roupagem dos GTI residentes. A grelha hexagonal de favos de mel, as faixas pretas nas portas, os retrovisores em negro brilhante e o incontornável logótipo GTI. As jantes são específicas e de 17’’ e na extremidade da tampa da bagageira um discreto spoiler. O habitáculo mantém-se fiel ao espírito, com destaque para os bancos desportivos de padrão axadrezado.