Porsche Taycan 4S Cross Turismo

Mais familiar e aventureiro

TESTE

Por Ricardo Jorge Costa 14-08-2022 07:00

Fotos: Gonçalo Martins

A primeira variante do Porsche elétrico pioneiro é  carrinha do tipo crossover, Taycan Cross Turismo. O construtor alemão preferiu modelo de características familiares com capacidades para evasões ligeiras em todo-o-terreno, a um exclusivamente estradista, conferindo-lhe mais-valia com essa versatilidade.

O Taycan Cross Turismo tem suspensão pneumática como a berlina original, mas mais 20 mm de distância ao solo  (30 mm com pack Off Road opcional) e um máximo de 17 cm de altura livre. Também lhe foi atribuído funcionamento no controlo de tração específico (Gravel) para lidar com pisos de terra batida ou gravilha. Na prática, esta dotação técnica permite andar de Porsche elétrico fora de estrada, empoeirá-lo para dar-lhe imagem  aventureira, seguindo o que as marcas premium, BMW, Mercedes, Tesla e Volvo, fizeram com os seus primeiros EV. No entanto, na Porsche em inédito formato de carrinha, ao estilo Allroad, All Terrain ou XC, de Audi, Mercedes e Volvo. Mas não se arrisque com o Taycan Cross Turismo em terrenos difíceis, porque certamente resultará numa carga de trabalhos.

Capacidade de carga é outra das virtudes da maior volumetria da carroçaria do Cross Turismo. A bagageira dispõe de 446 litros, mais 39 do que a da berlina, e a possibilidade de rebater os encostos dos bancos traseiros para aumentar essa medida até totais 1212 litros. Estes acrescentos à vocação familiar devem-se à linha de tejadilho elevada na área posterior da carroçaria, que permite criar mais 35 mm de altura nos lugares traseiros, mas nenhum aumento nas restantes cotas de habitabilidade. Porque, exceto em altura (+3 cm), o Cross Turismo mede praticamente o mesmo, em largura (+1 mm) e comprimento (+1,1 cm), do que a berlina. 

Tanto a capacidade da mala, como o espaço para os passageiros de trás, são apenas suficientes. De qualquer modo, em comparação direta interna, o Panamera Sport Turismo E-Hybrid só tem 418 litros, e o Cross do Taycan ainda oferece um compartimento dianteiro (no lugar do motor) com 84 litros (mais três do que na berlina).

No demais, a variante do Taycan é em quase tudo igual ao modelo original, e o quase resume-se ao peso, marginalmente superior (25 kg), e ao que este e o coeficiente aerodinâmico (superior 0,04 Cx) influem nas prestações (acelerações, velocidade máxima) e no consumo energético, este último interferindo na autonomia,  que é fator crítico num automóvel elétrico, mesmo nestes, que a têm alargada por bateria de elevada capacidade.

Não tanto o peso, mas a mais elevada altura ao solo do Cross Turismo, beliscam (e só) a dinâmica comparativamente à da berlina do Taycan. Perdas apenas ligeiras  na eficácia em curva, que no modelo original é referencial, considerando as especificidades da arquitetura da plataforma elétrica. Nesta, beneficia o comportamento do veículo a disposição em patim do agregado do motor - dois, um sobre cada eixo - e da bateria a intercalá-los, disposta em esteira, a possibilitar que o centro de gravidade seja o mais baixo possível. Só o peso do grupo eletrificado, a elevar a massa suspensa do veículo a 2320 kg, é incontornável.

A atenuar o efeito deste lastro significante estão a potência e o binário máximos abastados do débito conjugado dos motores elétricos síncronos de ímanes permanentes: Na versão 4S, num total de 571 cv e (420 kW) e 650 Nm, respetivamente, em pico momentâneo (overboost) e função de arranque otimizado (launch control). Em condições ditas normais, ainda generosos 490 cv. Perante tal descarga de energia, não há inércia que obste a prestações que se possam considerar  desportivas - ou melhor, dignas de superdesportivo.

O Taycan 4S Cross Turismo acelera de 0-100 km/h em tão-só 4,1 segundos (+0,1 s do que na berlina). Dos zero aos 50 km/h não precisa de mais de 1,7 s e para percorrer os primeiros 1000 metros apenas 21,8 s (+0,5 s), o quanto basta para roçar a velocidade máxima de 240 km/h (-10 km/h). Mas não são só os arranques a colar-nos ao banco, as retomas são igualmente esmagadoras. A cada pressão a fundo no acelerador há sensações de impulso e de velocidade vertiginosas. Só que, em vez da sonoridade entusiasmante dos motores de combustão, escuta-se um silvo que nos recorda as naves espaciais da ficção científica dos anos 80.

No entanto, as performances per si não fazem um desportivo. Aliando-as a uma dinâmica excecional, sim. Todavia, neste automóvel elétrico, os benefícios do baixo centro de gravidade (bateria em patim) e da distribuição equitativa de peso sobre os eixos (um motor em cada um) não chegam. E não faltou investimento na rigidez estrutural do veículo ou em dotá-lo de suspensões pneumáticas rigorosamente afinadas e reguláveis (automaticamente e pelo condutor) no amortecimento e na altura. O Taycan Cross Turismo passa em curva como se fosse sobre carris, a carroçaria tem movimentos mínimos e as derivas são diminutas, apenas ligeira subviragem, e só quando se brutaliza o eixo dianteiro em inserção em curva. Mas falta-lhe a leveza que faz os desportivos serem-no pelo dinamismo extraordinário e o que este confere ao prazer da condução, que é impossível num EV e com este peso.

O peso que, adicionado ao da berlina (25 kg), inflaciona ligeiramente o consumo elétrico, de 24 kWh para 25 kWh (aferido por AUTO FOCO), ao que corresponde redução de autonomia de 12 km, para 349 km.

A Porsche faz o que deve ser feito no contexto da indústria automóvel atual: multiplicar a oferta de automóveis elétricos. Com esta nova variante do Taycan propõem-se melhores atributos de transporte familiar, pela maior volumetria e sentido prático da bagageira, e na habitabilidade em altura nos lugares posteriores. Face ao original, a carrinha allroad Cross Turismo acrescenta versatilidade à berlina pela possibilidade de a levar em incursões em todo-o-terreno ligeiro. Por mais 6000 € do que aquela.       

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Ficha Técnica

Caracteristicas

PORSCHE TAYCAN

4S Cross Turismo

Motor
Tipo Elétricos síncronos (2)
Potência 571 cv (420 kW)
Binário 650 Nm
Bateria Iões de lítio
Capacidade útil 83,7 kWh
Tempo de carga (0-80%) 93 m (50 kW); 22 m (270 kW)
Transmissão
Tração Integral permanente
Caixa de velocidades Automática de 2 velocidades
Chassis
Suspensão F Ind. braços duplos, pneumática
Suspensão T Ind. multibraços, pneumática
Travões F/T Discos ventilados
Direção/Diâmetro de viragem Elétrica/11,7 m
Dimensões e Capacidades
Compr./Largura/Altura 4,974/1,967/1,409 m
Distância entre eixos 2,904m
Mala 84/446-1212 litros
Depósito de combustível -
Pneus F 225/55 R19
Pneus T 275/45 R19
Peso 2320 kg
Relação peso/potência 4,06 kg/cv
Prestações e consumos oficiais
Vel. máxima 240 km/h
Acel. 0-100 km/h 4,1 s
Consumo médio 22,6 kWh/100 km
Autonomia 452
Garantias/Manutenção
Mecânica 2 anos sem limite de km
Pintura/Corrosão -
Bateria 8 anos ou 160.000 km
Imposto de circulação (IUC) 0 €

Medições

PORSCHE

Acelerações
0-50 km/h 1,7 s
0-100 / 130 km/h 4,1 s
0-400 / 0-1000 m 11,8/21,8 s
Recuperações
40-80 km/h (D) 1,6 s
60-100 km/h (D) 2,1 s
80-120 km/h (D) 2,5 s
Travagem
100-0/50-0km/h 35,7/8,4 m
Consumos
Consumo médio 25 kWh/100km
Autonomia 350 km

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