Tem o nome de um dos mais conhecidos dinossauros predadores, Velociraptor, celebrizado na sequela cinematográfica Parque Jurássico, que partilha com o modelo mais comercializado do seu fabricante, a pick-up best-seller mundial F-150, que a Ford apregoa ao consumidor europeu agora na congénere de porte inferior, Ranger, numa proposta diferenciadora no segmento, resultante de apurado desenvolvimento técnico que permite atingir performances desportivas. Ou quase. Mais pequeno e ágil do que o F-150 Raptor – que é mais um T-Rex –, o Ranger, claramente um Velociraptor, menos robusto e potente, mas com aptidões inatas para oferecer momentos emocionantes de condução em todo-o-terreno leve, como os caminhos de pedras ou mesmo as areias. É o que no mercado automóvel mais se aproximará a uma pick-up desportiva.
Assim, para demonstrar as capacidades da nova Ranger Raptor aos jornalistas dos países em que o modelo vai estar à venda – em que se inclui Portugal e não a mãe-pátria Estados Unidos –, a Ford regressou a África para proporcionar uma experiência de condução verdadeiramente esclarecedora dos méritos deste automóvel nas dunas marroquinas. Ao bom estilo do Dakar e com direito a uma simulação de uma baja numa pista de traçadas nas areias imensas das praias da costa atlântica. Porque Baja é precisamente um dos seis modos do programa de dinâmica adaptativa da nova Raptor, denunciando-lhe pretensões desportivas sustentadas em diversos componentes e tecnologias importados da competição, que permitem prestações elevadas em off-road, ressalve-se, light, sem obstáculos demasiado radicais ou trialeiros.
As evoluções técnicas em comparação a outras versões da gama Ranger são várias e profícuas, implicando bastantes componentes afetos ao desempenho da pick-up. Desde logo, a suspensão posterior, em que a Ford substitui o eixo rígido por arquitetura com barra de torção com ligação Watt, que impede que o eixo da roda perca o seu alinhamento quando o chassis está submetido a grandes forças laterais, e trocou as molas de lâmina por elemento helicoidal. O eixo dianteiro mantém o esquema McPherson, mas com os braços em alumínio em vez de em aço, as vias são 15 cm mais largas e o chassis tem reforços de aço de altíssima resistência: na seção frontal, nas barras longitudinais transversais e nos pontos de ancoragem da suspensão.
Mas na suspensão, o que torna a Ranger Raptor uma pick-up (quase) desportiva são os amortecedores de alta performance produzidos pela especialista Fox, com soluções tecnológicas herdadas da competição e dispondo, entre as principais características, de um curso superior em 30% aos componentes das Ranger comuns, de que a Raptor difere ainda na maior espessura (2,3 mm) da proteção do cárter.
O sistema de travagem alinha igualmente pelo padrão de desenvolvimento racing da Raptor, com quatro discos ventilados de 332 mm de diâmetro, os dianteiros com 32 mm de espessura e os posteriores de 24 mm. Tal como os pneus BF Goodrich All-Terrain nas medidas 285/70 R17, especificamente concebidos para terem o melhor desempenho em terrenos pouco consistentes (lama, neve, areia, pedras soltas).
A Raptor tem tração integral inserível (através de comando na consola do habitáculo), dispondo de redutoras (4L) de acionamento eletrónico, tal como é o sistema que permite ao condutor adequar o desempenho do mecanismo motriz da pick-up em seis modos predefinidos: Normal, Sport; Erva/Terra/Neve; Lama/Areia; Pedra e Baja, este último, o tal que é projetado para evasões desportivas do asfalto. Além disso, há controlos de descida com forte inclinação e de estabilidade com função de anti-rolamento da carroçaria e ainda de apoio ao reboque.
De nada serviria esta parafernália de promoção de performances dakarianas sem devido upgrade estrutural do automóvel. Subida de nível desde logo refletida na distância ao solo, com mais 5 cm do que nas versões convencionais da pick-up (num total de 28 cm) e idêntica repercussão na altura de passagem a vau (85 cm). Mas também nos ângulos específicos de TT, com o de ataque (32º) e o de saída (24º) ampliados em três graus (3º). A Ranger Raptor está disponível apenas com carroçaria de cabina dupla e mede mais 5 cm de comprimento (5,40 m) e é 17 cm mais larga (2,03 m) face às congéneres de gama.
O motor, o único disponível para esta versão, é igualmente a otimização do bloco Diesel de 4 cilindros e de 2 litros que serve a gama Ranger, mas sobrealimentado por dois turbos que contribuem para produzir 213 cv e 500 Nm. À primeira impressão poderemos julgá-lo com músculo insuficiente para agilizar a considerável massa rolante de 2585 kg do veículo, mas em proveitosa associação a uma caixa automática de dez velocidades com possibilidade de comando manual em patilhas no volante, depois deste exigente exame a ritmo de baja, dissipa-se essa reserva. Todavia, não tem a energia do V6 a gasóleo da Mercedes Classe X (350 d). Mas esta não tem dinâmica tão apurada como a Raptor.
Esta distingue-se das demais Ranger também na imagem. Desde logo, nos para-choques e nas cavas das rodas (estas com proteções plásticas), ambos suflados para alojar rodas maiores, permitir um maior curso de suspensão e ampliar os ângulos específicos de TT, na grelha negra inspirada na do F-150 Raptor, nos estribos em alumínio com acabamento exclusivo antiderrapante (também negro) e na preparação para gancho de reboque, que é de série neste modelo. A caixa de carga dispõe de cobertura plástica do tipo persiana, que é de série, tal como os faróis dianteiros em LED.
No interior, os bancos dianteiros são revestidos a couro e camurça e têm estrutura reforçada e estofos mais firmes, assegurando correta sustentação ao corpo e boa posição de condução, embora elevada, e ainda beneficiando de regulações elétricas. Algumas superfícies, como as do tablier e os painéis das portas, também têm aplicações de couro, e tal como os estofos, costura azul. Esta a cor da Ford Performance, o departamento desportivo que concebeu a Ranger.
A Ford tem um automóvel altamente exclusivo no Ranger Raptor, único no seu segmento na Europa, na inspiração e performances desportivas. A nova pick-up beneficia de um profícuo desenvolvimento técnico que a habilita a um desempenho extremamente eficaz, com prestações elevadas (com pretensões desportivas, reforce-se) em todo-o-terreno ligeiro, especialmente em areia e pedra solta. Todavia, esta aptidão para a baja tem um preço muito alto.