Mazda MX-30

Insuspeita ousadia

Apresentação

Por Ricardo Jorge Costa 28-03-2020 09:05

O primeiro automóvel elétrico de produção em série da Mazda não faz qualquer referência à natureza específica da sua motorização, denominando-se pela conjugação de duas letras e dois números estreada pelo ainda recente crossover CX-30, em que a primeira dupla é de grande tradição na casa de Hiroshima – MX como MX-5, o roadster mais vendido de sempre da indústria automóvel. O número 30 remete para o suprarreferido SUV compacto de linhas de coupé, estilo e dimensões da carroçaria que partilha com este, tal como também a plataforma técnica, obviamente adaptada para o grupo propulsor exclusivamente elétrico e para o agregado de baterias que lhe fornece a energia.

Desde logo, o design. Apesar da decisão – não pioneira ou mesmo surpreendente – da Mazda decidir fazer a sua estreia no segmento dos automóveis elétricos com modelo de formato na moda, concebe-o com um elemento estético diferenciador que lhe confere exclusividade, as portas traseiras com abertura antagónica, que caracterizam outro modelo emblemático da marca, o desportivo RX-8 com motor rotativo. É uma solução de design arrojada com uma dose considerável de risco, porque traz restrições indiscutíveis aos acessos do habitáculo, impondo o basculamento dos bancos dianteiros para a entrada e a saída de passageiros para os lugares posteriores.

No resto, a Mazda garante que as cotas habitáveis são idênticas às do CX-30 e que os ocupantes vão 10 mm mais altos do que naquele crossover. Esta sobre-elevação do piso deve-se à instalação dos módulos da bateria, em plataforma, sob o habitáculo, o que implicou o reforço estrutural do veículo. Apesar de perder o pilar B devido às portas antagónicas, o MX-30 será, segundo o fabricante, estruturalmente tão ou mais rígido do que o CX-30. As suspensões foram igualmente revistas nas molas e nos amortecedores, devido ao peso superior do veículo elétrico, e a altura ao solo aumentou 20 mm.

Ainda no interior, o MX-30 não exibe grandes rasgos de originalidade face ao congénere de combustão, distinguindo-se pela consola central entre os bancos do tipo flutuante, elevada, baseando aí o seletor da caixa de velocidades e um grande botão giratório para interface do sistema de infoentretenimento, semelhante ao do CX-30, e com um compartimento inferior para pequenos arrumos. O painel de instrumentos é digital e não falta o indispensável monitor central. Específicos do EV são alguns materiais recicláveis que revestem os bancos e os painéis e puxadores das portas, incluindo cortiça portuguesa. A volumetria da bagageira não foi revelada.

Debaixo deste invólucro reside o órgão que definitivamente atribui a natureza diferenciadora do MX-30, a motorização elétrica e a respetiva bateria de baixa capacidade. Esta última, uma decisão potencialmente controversa, desde logo implícita no empenho dos responsáveis da Mazda em justificá-la com exaustiva argumentação. No cerne da questão, a pequena bateria de tão-só 35,5 kWh, conferidora de autonomia que não deverá, de acordo com o construtor japonês, superar os 200 km no ciclo WLTP. A opção por este componente que alimenta energeticamente o motor elétrico, cujas especificações não definitivas apontam para 143 cv (125 kW) e 265 Nm, é explicada pela sua adequação às necessidades do utilizador médio deste tipo de veículos de cariz utilitário, a garantir ao veículo o comportamento dinâmico eficaz que só a leveza e o baixo centro de gravidade de um volume compacto pode conferir e ainda as redução da pegada carbónica comparativamente às baterias de maior capacidade que a maioria dos construtores já utiliza nos seus EV, incluindo urbanos e utilitários.

O único proveito que podemos desde já comprovar é o que se refere ao contributo para a estabilidade e agilidade do crossover elétrico, em nada degenerando às do seu semelhante com motor térmico. Concluímo-lo numa breve condução de um protótipo do MX-30, sob a carroçaria e o habitáculo emprestados do CX-30, num percurso sinuoso e desnivelado na Serra da Sintra. Neste, foi igualmente evidente o correto compromisso do amortecimento entre eficácia e conforto, e a afinação precisa da direção. Mais do que as performances do motor, embora não defraudassem as exigências para um veículo deste gabarito.

Quando chegar, em setembro de 2020, o primeiro Mazda elétrico não destoará do estilo de muitos congéneres já instalados e quase nada do crossover da própria marca, o CX-30. Mas só à primeira vista, porque sob insuspeita imagem da moda está desde logo uma solução de design arrojada, as portas traseiras de abertura antagónica. Depois, junta-lhe a não menos ousada, quiçá controversa, bateria leve de baixa capacidade, a garantir não mais de 200 km de autonomia. Em prol da ecologia e da dinâmica.

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