A estrada de todas as emoções

BMW Motorrad GS Experience à descoberta da Roménia

Motos - Atualidade

Por Paulo Ribeiro 10-11-2018 09:00

Longe de ser destino de eleição ou, pelo menos, primeira escolha para viajar de moto, a Roménia revelou-se país de interessantes contrastes, paisagens soberbas e passagens míticas capazes de ombrear em espetacularidade com as famosas Grossglockner (Áustria), Stelvio (Itália), Trollstigen (Noruega), Furkapass (Suíça) ou Col du Turini (França). País de coração montanhoso, oferece cenários ímpares que o céu limpo permite apreciar a quilómetros de distância mas que uma cortina de denso nevoeiro pode esconder num repente. Estradas de razoável qualidade na maior parte da rede viária principal, contrastam com troços de piso irregular e esburacado, onde é, apesar de tudo, notório o esforço de modernização com inúmeros trabalhos de asfaltamento. Que exigem cuidados acrescidos numa região onde a diversidade de tráfego é grande desafio à concentração de qualquer motociclista. Até porque a ausência de rede de autoestradas digna desse nome leva grandes camiões e carroças puxadas por cavalos a partilharem as vias com bicicletas, peões por vezes imprudentes, animais de todas as espécies e automobilistas que nem sempre revelam o maior civismo ou cuidado na condução, mostrando por vezes elevadas doses de agressividade. Ultrapassagens em cima de curvas ou sobre duplos traços contínuos, inversões de marcha nos locais mais imprevistos ou desrespeito pelos semáforos são situações que aconselham máximo cuidado, sempre.

Panorama encontrado na ligação entre Bucareste e Sibiu, maioritariamente através da estrada nacional DN 1 (Drumul National), com incontáveis retas a ajudarem na habituação à realidade rodoviária, antes da obrigatória visita ao Bran Castle. Fortaleza construída no século XIV na floresta no sopé dos Cárpatos que é monumento nacional e conhecido como o Castelo do Drácula, personagem criada pelo escritor irlandês Bram Stoker (que, curiosamente, nunca visitou o local!). Mas que terá encontrado inspiração no sanguinário Vlad Tepes “O Empalador” que governou a Valáquia a partir do edifício que, em 2017, recebeu mais de 83.000 visitantes para apreciarem as peças de arte e mobiliário colecionadas pela Rainha Maria de Saxe-Coburgo-Gota. Tempo de descontração antes de seguir rumo a Sibiu, cidade que luta pelo título de 2.ª mais importante da Roménia e que é epicentro da famosa prova do World Enduro Super Series, Red Bull Romaniacs, cruzando algumas estradas em muito mau estado, piores mesmo que a nossa rede terciária, mais parecendo pistas de motocrosse, com imensos buracos e ressaltos. Valeu mesmo pela simpatia dos romenos, acenando à passagem dos estrangeiros num país de contrastes gritantes, onde marcas de décadas da ditadura de Nicolae Ceausescu ainda evocam memórias dolorosas.

Com história atribulada e palco de disputas ao longo dos séculos, um dos maiores países do Leste da Europa e de localização privilegiada, guarda diversas surpresas como as oferecidas ao longo de quase 400 quilómetros num dia que teve como ponto alto a passagem pela Transalpina (DM 67C), cuja imponência nem a chuva e nevoeiro chegados sem convite conseguiram encobrir. Começando por zona de floresta, de paisagens de verde intenso, a estrada entre Novaci e Sebes vai perdendo a vegetação à medida que cresce a altitude, até aos 2145 metros do Urdele Pass, a estrada mais alta da Roménia. Milhares de curvas são envolvidas por paisagens soberbas onde não faltam ovelhas, vacas e outros animais em saudável pastoreio. Vistas únicas com curvas deliciosas, a estrada do rei, inaugurada pelo controverso Rei Carlos II, em 1938, foi reconstruída durante a II Guerra Mundial e transformada no atual paraíso de condução entre 2007 e 2012. Onde milhares de motociclistas e automobilistas buscam, a cada ano, enorme prazer de guiar de forma extremamente fluída, aproveitando o excelente asfalto e curvas bem desenhadas, quase sempre com enorme visibilidade.

Momentos únicos que continuariam na Transfagarasan (DN 7C) cujos 90 quilómetros de extensão entre Cartisoara e Bascov começam com retas de bom asfalto, com as primeiras curvas a funcionarem como um shot de palinca, espécie de aguardente destilada a partir de fruta na região dos Cárpatos. Inebriante aquela que é considerada uma das mais bonitas estradas da Europa, de poderosa envolvente paisagística que aconselha várias paragens para fotografar ou, simplesmente, desfrutar de imagens únicas de via que normalmente está encerrada ao trânsito entre outubro e junho devido à neve nas altitudes mais elevadas. A segunda estrada mais alta do país, com passagem a 2042 metros de altitude, entre os mais altos picos da Roménia (Moldoveanu, 2544 m, e Negoui, 2535 m) foi construída entre 1970 e 1974 para garantir maior mobilidade do exército através das montanhas, precavendo eventual invasão da União Soviética, à imagem do sucedido em 1968 na Checoslováquia. Depois de apreciar lá bem no alto, o lago Balea, tempo para descer pela encosta sul, acompanhando o rio Arges e com paragem na enorme barragem de Vidraru, cujos 166 metros de altura (e 305 m de comprimento) represam espelho de água de 480.000 metros cúbicos, capaz de gerar anualmente 400 GW/hora. Ou seja, grosso modo, toda a energia despendida na alimentação elétrica da rede de Superchargers da Tesla desde 2012!

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