Miguel Oliveira, o homem do ano: «Prefiro ganhar, não interessa por que diferença»

Moto GP

Por Edite Dias 04-01-2021 16:35

Miguel Oliveira foi escolhido por A BOLA como homem do ano. O jovem fez Portugal acordar para o MotoGP. Sim, sabemos que foram, apenas, duas vitórias, mesmo que uma delas extraordinária - na forma e no simbolismo... -, em Portimão. Mas, mais do que as vitórias, aquilo que faz de Miguel Oliveira o Homem do Ano de 2020 para A BOLA é o que elas representam para Portugal, que saiu altamente prestigiado com a visibilidade proporcionada por uma modalidade seguida por centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Recuperamos aqui a entrevista conduzida pela jornalista Edite Dias. 

- Prefere ganhar na última curva como no GP da Estíria ou como aconteceu em Portimão, em que liderou sem concorrência desde o primeiro momento?

- Não tenho preferências [riso]. Prefiro ganhar. Seja por um centésimo ou com 10 segundos de vantagem. Vitória é vitória.

- Terminou em 9.º lugar no Mundial, a 14 pontos do 3.º classificado [triunfo no MOTOGP vale 25 pontos]. Os piores momentos deste ano foram os dois abandonos, causados por Pol Espargaró e Brad Binder?

- Não diria que foram os piores. Gosto de pensar ao contrário. Sei que nessas provas em que não pontuei não podia ter feito nada, mas nas provas em que pontuei houve duas ou três ocasiões em que senti que podia ter feito 5.º ou 4.º lugar. Recordo-me de Le Mans, onde, na luta pelo quarto lugar, na penúltima curva perdi o quinto lugar para o Zarco. Nesse aspeto, creio que podia ter melhorado. As corridas em que caí não podia ter feito nada, mas obviamente se tivesse pontuado daria uma soma de pontos muito importante.

- Não fez essas contas?

- Não quero fazer. Temos de ser críticos e analisar a situação do que podíamos ter feito diferente e melhor, mas quanto às quedas estava fora do meu alcance tê-las evitado.

- Este campeonato sem o lesionado Marc Márquez [seis vezes campeão mundial] foi muito diferente. Melhor ou pior?

- Foi triste ver o Márquez afastado durante muito tempo, já que logo após a queda ele perderia no mínimo apenas dois GP, mas voltou muito cedo e isso ditou o fim da sua época. Com o afastamento do Márquez muitos dos meus adversários viram uma oportunidade para brilhar e acho que psicologicamente foi talvez uma vantagem para todos, devido ao domínio dele no ano anterior, ver que ele não estava. Mas duvido que este ano ele pudesse ter tido o mesmo domínio, porque houve uma grande proximidade entre construtores e foi difícil ver quer uma marca de motos quer um piloto que pudesse fazer a diferença e andou-se igualmente rápido. Acharia muito interessante ter visto o Márquez neste campeonato.

- Diz que admira todos os teus adversários. Mas uns mais do que outros, não?

- Sim [risos]. O Dovizioso, por exemplo, é um deles.

- Como é a relação com os outros pilotos? Há uma geração de pilotos, à qual pertence, que tem feito esta caminhada junta há muitos anos.

- A nossa geração, não a do Márquez, que é um bocadinho mais velho, mas a do Mir, Quartararo, Morbidelli, chegámos a correr juntos quando tínhamos 12 anos, somos pilotos do mesmo grupo. O Rins também, crescemos juntos. Quando éramos pequeninos, alguns estavam em classes diferentes, mas acabámos por nos cruzar muito e agora estarmos todos no MotoGP é bom. É a geração do futuro.

- Ao contrário de gerações anteriores, em que havia muitas vezes duas figuras em competição dentro e fora de pista, não parece ser o caso aqui. Ou ainda não chegou a hora de colocar as garras de fora?

- Ainda não houve espaço para alguém sair do spotlight. Acredito que o Márquez é dos pilotos mais fortes que existem. Entrar em polémica só se fosse com ele. Mas a nossa geração tem uma coisa em comum: todos lutámos muito para chegar aqui. Desde o Binder ao Bagnaia, não sinto que houvesse alguém privilegiado. É uma geração que teve de mostrar trabalho antes de chegar a este patamar que é o MotoGP.

- E quanto ao futuro é mais Casey Stoner [abandonou aos 26 anos depois de se sagrar campeão do Mundo ] ou Valentino Rossi [está há 25 anos no Mundial e fará 42 anos em 2021]?

-  A minha opinião sobre o Casey Stoner é que ele era um piloto especial, muito talentoso, mas que talvez não se tenha conseguido enquadrar em todas as vertentes que o Mundial envolve. Os compromissos publicitários e lidar com os media eram coisas de que o Casey não gostava e não se conseguiu enquadrar nesse mundo e ver isso como parte do trabalho. O Rossi sim, é um autêntico rock star. Lida muito bem com isso e até de uma forma muito leve para cumprir os seus compromissos publicitários. Cada vez mais, sobretudo, tem o privilegio de declinar muitas coisas. Mas foi porque comeu alguns brócolos [sorri] há uns anos. E enquanto ele se sentir que anda bem, que é rápido e que tem algo para dar, é um privilegio para mim, enquanto adversário, poder continuar a partilhar a pista com ele.

- Todos os elogios são bons. Mas os dele, por ter sido o seu ídolo, são especiais?

- Não, porque ele já teve de falar tantas vezes de tantos pilotos que acho que sou só mais um. Ter o Rossi a falar sobre mim é diferente porque é o Rossi, acato com especial alegria os comentários que tem para fazer sobre mim. Mais do que o Espargaró, por exemplo.

- Já resolveu esse problema?

- Nunca foi problema.

- Quem lhe deu a alcunha de Einstein?

- [Risos]. Próxima pergunta, por favor.

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