Miguel Oliveira, o homem do ano: «Sair na frente é crucial para o sucesso»

Moto GP

Por Edite Dias 04-01-2021 16:48

Miguel Oliveira foi escolhido por A BOLA como homem do ano. O jovem fez Portugal acordar para o MotoGP. Sim, sabemos que foram, apenas, duas vitórias, mesmo que uma delas extraordinária - na forma e no simbolismo... -, em Portimão. Mas, mais do que as vitórias, aquilo que faz de Miguel Oliveira o Homem do Ano de 2020 para A BOLA é o que elas representam para Portugal, que saiu altamente prestigiado com a visibilidade proporcionada por uma modalidade seguida por centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Recuperamos aqui a entrevista conduzida pela jornalista Edite Dias. 

- Pensa que precisava de uma vitória para se afirmar definitivamente no palco do MotoGP?

- Senti que após a vitória da Estíria houve um período em que tinha grande expetativa em todos os Grandes Prémios, senti que fui bastante regular no sentido de ser um candidato a terminar no top-5, mas não a terminar no pódio de forma regular, o que para mim foi difícil. Mas senti que precisava de uma vitória diferente da do GP da Estíria, apesar de ter sido uma vitória a sério, foi uma vitória numa corrida que foi interrompida, numa corrida onde houve pilotos que puderam mudar os pneus... Não que alguém estivesse em desvantagem, mas senti que queria ganhar uma corrida como deve ser.

- E foi do 8 ao 80. Numa corrida domina do princípio ao fim, na outra vence na última curva. Naquele dia, na Áustria, acreditava que podia acontecer ou estava contente com o terceiro lugar e o primeiro pódio no MotoGP?

- Toda aquela volta foi uma condução natural, andámos muito rápido. Aliás, todo este ano andámos muito rápido, a Estíria não foi exceção. E durante toda aquela última volta eu estava mesmo no limite e simplesmente aproveitei uma oportunidade perante a luta que estava a acontecer à minha frente. Naquele Grande Prémio fui aquele que tive mais calma, frieza para analisar a situação e colocar-me no sítio certo.

- No que diz respeito às qualificações e às corridas, é mais maratonista?

- Temos de tentar ser completos, tanto na qualificação como na corrida. Eu julgo que nas qualificações tenho melhorado bastante, fiz maioritariamente qualificações na Q2, umas vezes diretamente outras da maneira mais difícil, mas quase sempre fiquei nos 12 primeiros.

- Essa regularidade mais à frente na grelha de partida pode ser uma chave para o sucesso no próximo ano?

- É crucial. A qualificação tem sido um dos momentos mais importantes do fim de semana. Com o formato atual, quase todos começam a trabalhar desde sexta-feira para qualificar bem no sábado e diria que a qualificação faz grande parte da corrida.

- É o que é preciso para ser campeão do Mundo?

- É um dos fatores que ajuda. Não vou mentir que sair à frente não torna as coisas mais fáceis do que sair de trás. Sair de trás não é um handicap, não impossibilita a vitória, mas existem momentos em que somos mais expostos a outras lutas. Se sairmos à frente, as coisas acalmam mais.

- Para o ano vai subir à equipa oficial da KTM. O que é que isso implica? Pode ser decisivo para a melhoria?

- A nível de mecânicos não vou ter o dobro, mas vou ter o dobro de pessoas atrás do painel da boxe porque existem muitas pessoas a trabalhar para o bom funcionamento da moto e é aí que se vai buscar o detalhe. Por vezes, no Moto GP, é difícil quando falta alguma coisa na moto e ter de ser o piloto a colocar, e a este nível toda a ajuda é fundamental. Pode ser o detalhe que fará a diferença. E a equipa da KTM tem essas ferramentas para eu poder crescer. Por outro lado, sinto que vou ter outro tipo de responsabilidade, vou ter maior carga horária, vou testar mais coisas na moto, vou ser responsável por dar o feedback à fábrica. No fundo, é ter uma mão na leme do barco todo e direcionar o desenvolvimento da moto para onde julgo ser melhor, juntamente com o meu companheiro de equipa e a equipa de testes. É uma posição de grande responsabilidade e que não tomo de ânimo leve. Procuro sempre fazer o melhor.

- Satisfeito com o companheiro de equipa [Brad Binder]?

- Sim, temos uma boa relação. À parte de sermos adversários na pista. O Binder é um piloto realista e muito humano no que toca a abordar a competição, não tem nada a esconder e acho que vamos fazer uma boa dupla.

- Agora que venceu dois GP, vai mudar para uma equipa oficial e toda a gente acha que vai ter ordenado de jogador de futebol...

- Risos.

- Disse uma vez que a tabela do Moto GP começava nos 200 mil euros ano, muito longe dos futebolistas. Há uma ideia errada de glamour e salários milionários?

- Sim. Existe um grupo muito restrito de pilotos que faturam milhões de euros, com tudo aquilo que rodeia [patrocínios, salários, publicidade]. Julgo que nesse patamar existe apenas uma mão cheia de pilotos, mas acredito que chegarei lá porque tenho esse perfil desportivo e humano.

Para sempre Estíria

À semelhança do que aconteceu em Mugello, em 2015, quando venceu pela primeira vez um Grande Prémio na sua carreira, na Áustria o piloto português não teve a companhia da família, este ano a sofrer à distância devido às restrições da pandemia. A forma como, na última curva, se colocou na frente e venceu deixou o motociclismo mundial e os portugueses rendidos. «Eu próprio estava arrepiado, porque tudo aquilo se passou muito rápido. Ver-me chegar sem ninguém à minha frente é uma explosão de adrenalina imensa. Foi das mais vitórias que mais emoção me deu, por ter sido tão sonhada. Esperava um pódio primeiro, mas tudo começa por acreditarmos. Aproveitar a oportunidade fez-me acreditar que o primeiro lugar era possível».

Foi preciso esperar nove anos para ver concretizado um dos seus muito sonhos, contruídos degrau a degrau, como faz desde que andava de moto no parque de estacionamento de um hipermercado, ainda menino. Em 2011 estreou-se no Mundial de velocidade e a 23 de agosto de 2020 foi o primeiro a ver a bandeira de xadrez na sexta corrida da temporada. «Estava a chorar e dizia 'Não acredito, não acredito'. Assim que me apercebi que estava sozinho, comecei a chorar. É muita emoção, é normal. Era um sonho de infância ganhar uma corrida no Mundial de MotoGP», confidenciou o piloto da Red Bull KTM Tech3.

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