A Hispano Suiza foi fundada em 1904, na cidade de Barcelona, por Damián Mateu; 117 anos depois, a empresa continua nas mãos da mesma família. Os veículos da marca têm sido escolhidos por aristocratas, reis e artistas, que valorizaram os padrões de construtor que ressurgiu em 2019 com o lançamento do Carmen e do Carmen Boulogne, dois hiperdesportivos elétricos dos quais, no total, apenas serão fabricadas 24 unidades.
Entre os exclusivos proprietários dos modelos da marca encontra-se, por exemplo, o rei Afonso XIII, de Espanha. Só uma de muitas curiosidades praticamente desconhecidas sobre a empresa.
Automóveis e motores de avião
A Hispano Suiza criou o seu primeiro veículo, o Tipo Acorazado Sistema Birkigt, em 1905, com um motor de quatro cilindros com 20 cv de potência, alcançando os 87 km/h de velocidade máxima. Mas durante a I Guerra Mundial, a Hispano Suiza deixou de estar centrada na produção de automóveis para passar a fabricar motores de aviação. Foi um período de sucesso para a empresa, em que foi aplicada a sua experiência no fabrico e desenvolvimento de motores para automóveis um novo campo, que lhe proporcionou grandes benefícios.
Birkigt construiu um motor de avião que se baseava no dos automóveis de competição, seguindo o princípio de “comando direto”, com 8 cilindros em V e bloco em liga de alumínio, para reduzir o seu peso. A Hispano Suiza começou a receber inúmeros pedidos. Tantos, que teve que vender licenças a fabricantes de França, Reino Unido, EUA, Itália, Japão ou Rússia… No total, foram fabricados mais de 50 000 motores Hispano Suiza.
Os motores de aviação da Hispano Suiza também tiveram o seu lugar no mar. O mais espetacular, um 12 cilindros em V a 60° com 1300 cv de potência, foi montado numa série de lanchas de corridas, entre elas a chamada Aurora, construída em 1935. Birkigt colaborou na montagem desta embarcação, que foi leiloada há uns anos por uma cifra próxima de um milhão de euros.
O automóvel da classe alta
Graças ao desempenho dos seus veículos, que combinavam velocidade com leveza e boas sensações ao volante; ao seu fabrico artesanal, com atenção ao detalhe; e à qualidade dos seus acabamentos, a Hispano Suiza colocou-se à altura de outras reputadas marcas já estabelecidas no mercado.
Além do rei Afonso XIII de Espanha, os veículos da marca espanhola foram escolhidos por aristocratas, intelectuais e os mais reputados artistas do mundo, como Gustavo V da Suécia, Carlos II da Roménia, Luís II do Mónaco, Pablo Picasso, André Citroën, Coco Chanel, René Lacoste, Paul McCartney ou Albert Einstein, ele mesmo.
A utilização de automóveis Hispano Suiza esteve sempre intimamente ligada a clientes com elevado poder de compra, um requintado gosto pelo luxo e uma paixão incalculável pelo automóvel. Hoje em dia, os Hispano Suiza clássicos são conservados com supremo cuidado em museus e coleções privadas de todo o mundo.
Bem de Interesse Cultural
O Hispano Suiza 30-40 HP foi um modelo importante na história da marca, desenvolvido por Birkigt enquanto substituto do 20-30 HP. De todas as que foram produzidas, há uma unidade muito especial, que foi adquirida pelo Marquês de Zayas e carroçada por Francisco Capella.
Este modelo utilizava madeiras nobres e materiais como marfim e prata. O volante estava montado à direita, como então era habitual, e contava com aplicações em mogno, puxadores de marfim, cristais biselados, cortinas automáticas, bancos com fino revestimento amortecido, perfumadores, jarras para flores e inúmeros pormenores que sublinham a elegância e a exclusividade de um Hispano Suiza feito sob medida.
O modelo, após o leilão dos automóveis do Marquês de Zayas, foi adquirido pelo Ministério do Interior, que o declarou Bem de Interesse Cultural em 1988, sendo o primeiro automóvel considerado como tal, o que o coloca no mesmo patamar de outros monumentos espanhóis. O veículo passou para a custódia da Direção Geral de Tráfego e encontra-se exposto no Museu da História do Automóvel, de Salamanca.
A cegonha na dianteira
O emblema da Hispano Suiza, a cegonha, é uma referência ao legado da empresa enquanto fabricante de motores de aviação. A marca decidiu adotá-lo em todos os seus modelos em honra a um piloto francês, Georges Guynemer, que fazia parte de uma bem-sucedida esquadrilha que exibia a cegonha nos seus aviões de combate, os quais, naturalmente, estavam equipados com motor Hispano Suiza.
Em 1919, a cegonha prateada acompanhou o novo Hispano Suiza H6B na sua apresentação no Salão Automóvel de Genebra e, desde então, tem sido parte importante de todos os modelos da marca, acompanhada das bandeiras de Espanha e da Suíça. Cem aos depois, a cegonha voltou a levantar voo na apresentação do Carmen, também em Ginebra.
A origem do Carmen
Carmen é o nome que foi dado pela Hispano Suiza ao veículo com que a marca ressurgiu. Trata-se de um modelo que fez história: o tecnologicamente mais avançado jamais concebido, fabricado e desenvolvido em Espanha. A escolha do nome não foi um acaso: é uma homenagem a Carmen Mateu, neta de Damián Mateu – fundador da empresa – e mãe do atual presidente da Hispano Suiza, Miguel Suqué Mateu.
“O nome Carmen é uma homenagem à nossa mãe. Quando debatíamos que nome colocar ao veículo, surgiu a ideia de que fosse Carmen, e a família ficou encantada”, declarou Miguel Suqué Mateu. “Ela dizia-me sempre que queria voltar a ver um Hispano Suiza nas ruas, e estou certo de que, agora, estará orgulhosa disso mesmo. A assinatura que se encontra na parte traseira do veículo é a sua assinatura original”.
O ’apelido’ Boulogne, utilizado para a versão mais potente do Carmen, tão pouco é uma coincidência. É uma homenagem da empresa às vitórias alcançadas pelo Hispano Suiza H6 Coupé na Taça George Boillot, levada a cabo na localidade francesa de Boulogne há um século atrás.