No princípio, é a imagem que cativa: austera, quadradona, sem polimento de ondulações e a quase inexistência de acabamentos arredondados. É a pureza geométrica aplicada ao automóvel no seu melhor. Gosto de geometria, de coisas geometricamente arrumadas e alinhadas umas com as outras. Um distúrbio? Provavelmente. A imagem do Mercedes Classe G apaixona-me pela simplicidade e absoluta ausência de ´'rococós' que expressa até alguma arrogância, como se dissesse que não precisa de quaisquer ornamentos para encantar. Concordo. Não precisa.
Nesta nova geração, o Classe G, que mantém aquela aparência exterior clássica que dá ideia de ter sido construído a partir de um único bloco de aço, bem como diversos elementos icónicos que, hoje como ontem, cumprem funções bem definidas e conferem o tal visual único ao Classe G. o puxador da porta clássico, o característico ruído da porta ao fechar, os frisos de proteção exteriores, a roda de reserva no portão da bagageira, as luzes indicadoras de mudança de direção ou a indispensável pega off-road para o pendura.
O G cresceu 53 mm em comprimento e 121 mm na largura, o que se traduziu em ganhos na habitabilidade: há mais espaço para pernas à frente e atrás (38 e 150 mm, respetivamente), assim como maior desafogo para os ombros (38 mm e 27 mm). Uma vez sentados em frente ao volante, não fosse a posição de condução elevada e a consciência de estarmos dentro de um enorme caixote com rodas, a sensação é semelhante à que vivemos num modelo topo de gama da Mercedes, pois a modernidade é absoluta. Aqui encontramos os dois ecrãs de 12,3 polegadas que, em moldura comum, fazem de instrumentação e ecrã central onde podemos visualizar todas as informações sobre o automóvel, bem como as opções e ajustes de utilização dos sistemas multimédia, segurança, conforto, enfim, tudo e mais alguma coisa. E isto pode ser feito de várias formas: nos botões no volante, no botão rotativo posicionado na consola central ou no touch-pad que o cobre parcialmente. Ou seja, um interior igual ao que encontramos, por exemplo, no Classe S, mas posicionado muitos centímetros acima. E esse (a altura ao solo) é um dos motivos de desagrado da família mais próxima que se fez transportar no Classe G. «Isto não dá jeito nenhum para entrar», «faz falta aqui outra pega», «ou um degrau», enfim, um rol de queixas de quem não encaixa que é preciso algum esforço para aceder a uma outra dimensão. Do ‘Automóvel’, neste caso.
É do alto do posto de condução do Classe G que me sinto quase invulnerável perante o que me rodeia na estrada. Rodeado de automóveis enquanto tento sair de Lisboa à pior hora do trânsito vespertino, imagino como seria abalroar alguns deles para abrir caminho... Ao fim de cerca de meia hora de pára-arranca a desfrutar do fantástico sistema de som surround da Burmester (1600 €), chego a paragens mais desafogadas e sem trânsito, onde posso puxar pelos cavalos do novo seis cilindros em linha 3.0 turbodiesel com 286 cv, acoplado à caixa automática de nove velocidades (9G-Tronic). Ainda em asfalto, a aceleração impressiona, não tanto pela rapidez (0-100 km/h medidos em 8,7 segundos), mas pela massa que sei que se desloca graças à pressão do meu pé no pedal mais à direita. Depois, contrariamente ao que se possa pensar perante um veículo com este tamanho e peso, o Classe G conduz-se de forma simples, sem esforço, o que até torna divertido guiá-lo a velocidade elevada em zonas sinuosas. A Física condiciona-lhe maior agilidade, pois a carroçaria adorna em curvas de maior apoio, mas a verdade é que nunca sentimos perda de estabilidade e nem por sombras a segurança ameaçada.
Mas não foi para guiar o G em alcatrão que me desloquei mais de 30 quilómetros para fora da capital. Atiro-me para uma estrada de terra com o cume de um enorme monte em mente. A Mercedes diz que o Classe G vai sempre a direito e quero descobrir se isso é mesmo verdade. Depois de um par de quilómetros num estradão a criar uma gigantesca e contínua nuvem de pó, eis que o terreno inclina para uma espécie de caminho que só as cabras entenderão como tal. Pedregulhos, pedras soltas, buracos, raízes, todas as dificuldades que se possam imaginar para um veículo de quatro rodas. Com o bloqueio do diferencial central ativo, vou avançando sem pressa e sem parar. O G abana, mas não hesita. O conforto é muito aceitável face a condições tão adversas. O modo Offroad adapta o amortecimento, a direção e as característica do acelerador, evitando assim passagens de caixa desnecessárias. Mantenho a aceleração constante e o G avança como uma locomotiva, só que muito mais devagar. Assim se chega ao longe, reza o ditado. Pedra a pedra, vai criando o seu próprio caminho. A moldura criada pelos pinheiros não deixa perceber quão longe está o cume. E o GPS não ajuda, ainda não identifica caminhos de cabras. Uma dezena de metros adiante, dois valentes abanões e no para-brisas, o céu azul.
Reinterpretado para os tempos modernos, onde a concorrência dos SUV topo-de-gama bonitinhos é feroz, o Classe G da Mercedes mantém-se fiel à origens, não fazendo quaisquer cedências na imagem que o caracteriza há já 40 anos. No interior, modernidade obrigatória e conforto ao nível das melhores berlinas de luxo. Depois, aplauso para a excelência de funcionamento da mecânica Diesel de 6 cilindros em linha e para a enorme versatilidade de utilização. Em conversa com um camarada de profissão, disse-lhe que ao volante do Classe G era quase impossível não imaginar uma viagem à volta do mundo, enfrentando asfalto, trilhos, dunas, enfim, o que quer que aparecesse pela frente.