Nada de bandeiras e multidões ou cartazes à espera de Miguel Oliveira, ontem, no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa.
Não porque o arrebatador triunfo no Grande Prémio de Estíria, o primeiro de um português na categoria rainha da velocidade não o justificasse, nem porque as vontades de receber o herói em apoteose faltassem. Mas vivem-se tempos estranhos, de pandemia e, a pedido do piloto, que na véspera elevara o orgulho nacional aos píncaros, apenas imprensa, o pai Paulo Oliveira e Carlos Barbosa, presidente do Automóvel Clube de Portugal, aguardavam por ele no auditório Ícaro, com aplausos tímidos, mas a representar todos aqueles com que a nação queria brindá-lo.
Escoltado por agentes da autoridade, o franzino Miguel Oliveira chegou de máscara a cobrir-lhe o sorriso, vestido de preto, com calças rasgadas nos joelhos, carregando na mão uma pasta negra. Pousou-a sobre a mesa cheia de microfones e acorreu a abraçar o pai. Profissional, regressou à mesa, abriu a dita pasta com o símbolo do MotoGP gravado… «Isto é o que interessa, não é?!», questionou, com pergunta de retórica, enquanto retirava o troféu de madeira com a forma do circuito, casa da KTM que representa na Red Bull Tech 3.
«A última curva foi mais ou menos por aqui», explicou, depois, apontando para a base do troféu, junto à placa dourada, onde se lia o nome do grande prémio e as datas. Ironicamente, a curvatura que fazia balançar a peça de madeira sobre a mesa foi a mesma em que, no asfalto, Miguel se revelou mais firme, quando ultrapassou Jack Miller (Ducati) Pol Espargaró (KTM).

Garantindo ter dormido bem - «Parecia um sonho, mas felizmente vivi-o bem acordado e foi fantástico», asseverou -, Miguel quis justificar-se por ter abdicado do carinho dos fãs. «Esta grande conquista poderia ser vivida de uma forma mais apoteótica, se não estivéssemos nessa situação de Covid-19. Da minha parte, foi mais responsável apelar a todos os fãs que evitassem a receção. Correr o risco de contrair o vírus, é altamente limitador, sob pena de não poder entrar no paddock», esclareceu, vincando a «gratidão» pelo reconhecimento dos portugueses que não o abandonaram quando, no mesmo traçado, há uma semana, chegou ao inferno obrigado a abandonar a corrida, quando o pódio era hipótese e, neste domingo, tocaram com ele o céu.
«Quando cerrei o punho a festejar, eu próprio estava arrepiado. Tudo se passou muito rápido. Ver-me a chegar sem ninguém à minha frente e ver a bandeira de xadrez em primeiro lugar, é uma explosão de adrenalina imensa. Na verdade, foi das vitórias que mais emoção me deu, por ser tão desejada e tão sonhada no MotoGP», repetiu Miguel Oliveira.
«Ser campeão do mundo é um sonho, mas agora mais um objetivo. Julgo que o importante para alcançar qualquer título é manter a consistência. Vamos chegar ao Grande Prémio de Portugal numa situação incerta por não podermos testar nessa pista. A maior parte da grelha não conhece o traçado e eu conheço. Tenho essa pequena vantagem, espero que seja um fim de semana em grande. Celebrar o facto de termos um evento de nível mundial no País, e como piloto português no MotoGP, espero poder brindar, nesse dia, os portugueses com um grande espetáculo e, logicamente, a vitória!»