Exercício de memória: recorda-se do caso dos (dois) submarinos que o nosso País comprou a consórcio industrial alemão em 2004?! Então, Durão Barroso era primeiro-ministro e Paulo Portas ministro de Estado e da Defesa. As suspeitas de corrupção baseavam-se na hipótese de pagamentos de subornos e negócios de consultadoria falsos para garantia da assinatura de contrato de 880 milhões de euros… Em Portugal, as dúvidas permanecem, depois de anos de investigações sem resultados. E, assim, as desconfianças mantêm-se. Já na Alemanha, crimes confirmados e gestores da Ferrostaal punidos. Então, procuradoria de Munique no comando das operações.
Catorze anos depois, que coincidência, procuradoria de Munique, novamente, no olho do furacão. Desta vez, Portugal de fora de investigação. O objeto é o escândalo da manipulação dos gases de escape nos motores a gasóleo do Grupo VW. A bomba estoirou em 2015, nos EUA, e o consórcio ainda não sossegou. Agora, em vez da arraia- -miúda (entenda-se engenheiros que cumprem ordens!), peixe graúdo debaixo de olho dos investigadores e das autoridades judiciárias, prisão de Rupert Stadler, diretor da Audi (foi-o até terça-feira, 19), devido a perigo de eliminação de provas fundamentais para o processo. O alemão de 55 anos é suspeito de fraude, publicidade enganosa e papel ativo na comercialização de automóveis TDI fora da lei na Europa.
Stadler é a figura de maior importância detida na sequência do escândalo revelado em 2015, nos EUA, com o Grupo VW a acabar por reconhecer que recorria a software para adulteração dos dados das emissões poluentes. Pouco tempo depois, Martin Winterkorn, renunciou ao cargo, mas até o sucessor, oriundo da Porsche, Matthias Müller, foi obrigado a abandonar a liderança, também devido à suspeita de envolvimento no Dieselgaste. Mais prisões à vista? Winterkorn também está indiciado nos EUA.
Até ao momento, o escândalo custou 25.000 milhões de euros à empresa alemã, entre recompras de automóveis, indemnizações e multas, mas o pesadelo não acabou, devido à quantidade de processos nos tribunais. E o montante não inclui os 1000 milhões de euros de multa aplicados dia 13 por tribunal de Braunschweig, cidade muito próxima de Wolfsburgo, onde o fabricante tem a sede. Afirmam-no as entidades judiciais, a administração falhou no controlo do departamento de desenvolvimento de automóveis, facto na origem da produção de cerca de 10,7 milhões de viaturas a gasóleo ilegais, de 2007 a 2015.