No âmbito da edição da reportagem publicada nesta edição de AUTO FOCO sobre o Mustang Bullitt, uma raríssima – quiçá única – celebração da participação de um automóvel no cinema, foi inevitável rever o muito bom filme policial norte-americano de 1968 que celebrizou a cena de perseguição entre um Ford Mustang GTA 390 Fastback de 1965 e um Dodge Charger R/T de 68.
O momento cinematográfico entrou para a história da 7.ª arte, considerado por muitos críticos ainda hoje o melhor e o mais realista do género, teve a invulgaridade de destacar, não o seu protagonista principal, o então já afamado Steve McQueen, um amante inveterado e colecionador de automóveis desportivos, no papel do detetive Bullitt, mas acima de tudo o automóvel. Qualquer pessoa que o aprecie, e não apenas o Ford Mustang, dos seus primórdios aos modelos mais recentes, não fica indiferente ao brilhantismo do desempenho do veículo, da sua estética, em harmonia com a de toda a cena que se desenrola entre as avenidas de São Francisco e as estradas limítrofes, durante bons e empolgantes minutos de ação. O ronco do V8, as batidas secas das suspensões nos saltos nas ruas desniveladas no interior da cidade, o ruído puro dos pneus, sem filtro ou efeitos especiais. Uma ode ao automóvel, a quem gosta de conduzir depressa.
Já não se fazem ou farão cenas como a de Bullitt. As corridas de ruas (street races) e as perseguições fantasiosas de Velocidade Furiosa vieram para ficar e banalizaram o género. O fenómeno do tuning associado à saga também não ajuda. Privilegiam-se os ambientes escuros para sobressair os néon, não os automóveis. As pessoas e não as máquinas. Faça-se justiça, o único que faz alguma coisa pelas belas perseguições de automóveis e pelo protagonismo destes no grande ecrã é James Bond, infelizmente cada vez menos. A Aston Martin deve parte relevante do seu prestígio ao agente 007. E não deveria desaproveitá-lo, mesmo com modelos transformados pelo engenhoso mister Q.
Esta temática dos automóveis que se guiam sozinhos e que certamente conversarão com o condutor, remete-nos para outro exemplo em que a ficção no cinema e na televisão antecipou-se ao seu tempo, neste caso, o do mais célebre carro que falava e se conduzia de forma autónoma. Em 1982, o KITT, um Pontiac Firebird TransAm negro com uma faixa de tipo LED vermelha no capot recorria à Inteligência Artificial, para combater o crime.