O jornalismo, até o jornalismo, tornou-se refém da pós-verdade. Recentemente, com ares de espanto, o jornal ‘X’ descobriu que a introdução de protocolo novo para a homologação dos consumos de combustível e das emissões poluentes provocará aumentos substanciais nos preços dos automóveis, consequência do impacto no Imposto Sobre Veículos (ISV) da substituição do NEDC pelo WLTP. A manchete de ‘X’ tornou-se notícia do dia na TV ‘Y’ e na rádio ‘Z’. Mas, surpreenda-se, informações sem novidades. Sabe-se que será assim desde que a União Europeia (EU) aprovou norma que coloca os fabricantes entre a espada e a parede, incapazes de cumprirem limites de emissões… impossíveis, com a tecnologia disponível.
O ISV a pagar pelos automóveis novos calcula-se com base em dois critérios: cilindrada do motor e emissões de dióxido de carbono (CO2). O WLTP propõe mais transparência na relação dos fabricantes com os consumidores – agradece-se –, mas a aproximação dos números oficiais aos reais não deixará de refletir-se, diretamente, nos registos da homologação. As expetativas são de aumentos de 20 a 30%. Em Portugal, novamente, ouvidos moucos a recomendação da EU para revisão da fiscalidade que amortecesse o impacto da medida. Agora, salve-se quem puder… contar com apoio das casas-mãe, para encomendar e matricular quantidade enorme de viaturas até ao fim de agosto, de forma a alimentar o mercado até ao final do ano.
Recorde-se, assim, o essencial. O período transitório do NEDC para o WLTP iniciou-se em setembro de 2017. Entretanto, os resultados assustaram todos os protagonistas da indústria, com números de consumos e gases de escape muito (muitíssimo) acima dos antecipados, existindo cada vez menos dúvidas sobre a impossibilidade de cumprimento do limite de 95 g/km para as médias de emissões de CO2 das frotas dos diversos fabricantes no mercado. A violação das normas, tanto em 2020, como em 2021 e nos anos subsequentes, será penalizada com pagamentos de multas multimilionárias capazes de implodirem indústria que representa só 12,6 milhões de empregos na Europa!
Em Bruxelas, como em Lisboa, ouvidos moucos! Por isso prioridade à sensibilização dos governos nacionais para concessão de apoios que permitam sonhar com missão impossível, vendendo-se cada vez menos Diesel e investindo-se moderadamente na rede para elétricos. Tarde demais.